Mais de mim
Sabia que tinha de sair dali. Levantar daquele sofá, jogar a garrafa de uísque vazia fora, colocar um tayer e ajeitar o cabelo. Sabia que a essa altura esperavam mais de mim. Ou, quem sabe, era eu mesma quem esperava isso.
Enrolada no roupão, descalça no carpete, fingia que as horas não passavam. Fingia que o mundo havia paralisado, mas não. No máximo, ele estava girando em torno da minha cabeça embriagada e meus dedos dormentes.
De fato eu era mesmo muito difícil de dominar. Nem eu conseguia tal proeza e por vezes desejei domar meus leões. Uma tentativa frustrada de autocontrole, pois sempre fiz o que queria. Menos uma vez.
Uma única vez fui presa. Colocaram-me na cela mais segura que um animal feroz poderia ficar – os braços dele. E deixei acariciar e amansar, quieta e assustada. Acreditei que ele fosse tudo o que eu sempre sonhei. Foi aí então que descobri que esse alguém não existia. O que sempre existiu foi o meu amor, só isso. E existiu rancor também – esse mesmo que me trouxe até aqui.
Diante dos flash’s eu nem parecia ter aceitado minha condição. Agora eu era uma das mulheres mais poderosas do mundo. Isso mesmo! Mulher e poder. Ou, mulher, poder e eu.
Tinha nas mãos o direito de avassalar uma parte da história. Decidir onde e quando começaria, onde e quando terminaria. Tinha toda cultura dos milhares de livros que li, das milhares de músicas que ouvi. Tinha a absorção dos filmes, documentários, peças de teatro. Tinha a larga experiência das infindáveis conversas e inúmeras amizades de mesas de bar. Tinha toda família que criei, todos os amigos que conquistei, todos os amores que amei. Só não tinha a mim.
E se agora dissesse que foi por falta de procurar, estaria mentindo. Ansiei por me encontrar em tantos lugares que perdi as contas. Ansiei por mim no alto dos prédios, nas pedras da praia. Mas só quando percebi minha ausência, comecei a me encontrar.
Decidi então, contar meus segredos às orquídeas. Dediquei-as todo furor de minhas entranhas à espera apenas do desabafo. Se quisesse conselhos, procuraria um psicólogo.
Estranho mesmo era o fato de que ainda ardendo por dentro pelo desamor dele, pensá-lo me fazia rir. Ele era – absurdamente – minha piada mais engraçada.
E agora eu estava ali, no melhor dia da minha vida.
Estava de volta à cor, e isso sim importava. Ele havia se transformado em cinza para se camuflar no cimento da cidade e escapar dos predadores. Durante um tempo também eu me desbotei. Perdi a alegria das cores para conseguir o status do cinza, mas não renegamos quem realmente somos, e me rendi ao que sempre fui: uma borboleta colorida que apanha e morre, mas não se vende, não se mistura, não se esquece. Ele sim se esqueceu e perdeu a cor. Coitado! Se soubesse quão bonito era seu sorriso colorido...
Mas, voltemos ao foco – esse era MEU momento. A partida.
Acendi um cigarro de cereja e fiquei durante horas deslumbrada pela chama silenciosa de meu mais novo seguidor, segurado por minhas mãos de unhas vermelhas.
Viajar para Paris nunca me pareceu tão animador.
Acho que as circunstâncias ajudavam a inflamar a ansiedade. Minha primeira viagem internacional e o melhor: agora eu era dona de mim.
Desembarquei sob olhares curiosos e minha beleza se expandia pelos vidros por onde passava. Uma espécie de anjo sem asa, demônio carnal que transpirava ações doces e pecados sutis.
Fui demais. Tudo, absolutamente.
Exagerei na dose e a overdose foi inevitável. Mas agora sei a medida exata de me doar, e com o veneno e o perfume naquela noite seria capaz de tudo que quisesse. Desde um simples estalar de dedos até a ordem mais calculada.
Desta vez escolheria sem titubear meu mais novo caminho, sem reclamações ou perdas, pois nada se perde quando nada se quer. Afinal, o que tenho além de carne e osso é uma alma que nunca envelhece. Tenho minhas glórias e meus sabores.
A revolta está na juventude e as rugas não me pertencerão ainda. Guardo-as para quando forem necessárias, porque por enquanto só quero mais de mim.
“E eu não me queixo”...
Escrito por Érica Marin às 14h00
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