Domando leões



Os caçadores de estrelas

 

Entre as árvores e a noite, despencavam sobre nós dois alguns poucos exemplares de estrelas. A lua se escondera por entre as nuvens, num céu encoberto, mas não menos belo.

Ele me abraçava num calor intenso e mágico e a grama como nosso tapete fazia surgir centenas de duendes alegres.

Sentia vontade de rir de mim mesma, de sentir, de tocar. Sentia vontade de ser o que há muito tempo não era mais. Sentia um furor tamanho e não identificável pelas palavras. E se me esforçasse bem, poderia até ouvir a voz dele cantando Pearl Jam no meu ouvido.

Porém, agora, não seria necessária a recordação. Ele estava ali, ao soar de qualquer música e qualquer beijo demorado. Porque ainda pode haver pérolas e ainda pode haver proteção, basta encontrá-la nos braços certos.

 



Escrito por Érica Marin às 11h25
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Marcas que não se apagam

 

As malas no carro representavam o fim de um martírio. Meses sendo amante e seria o fim se ele não tomasse uma atitude logo. Não que ela gostasse da idéia de pressioná-lo, mas a volta pra casa solitária nas sextas-feiras fizeram com que chegasse ao seu limite.

O amor era imenso, mas ao mesmo tempo pequeno demais para que pudesse dividir e a idéia de que suas mãos tocassem outro corpo que não o seu, a conturbavam. Era a outra, mas ao mesmo tempo era única.

Agora aquelas malas e o travesseiro no banco de trás marcavam o início da história possível e o fim das lágrimas de saudade. Agora eles poderiam ligar quando quisessem, andar de mãos dadas. Agora poderiam sentir o gosto da aprovação e esquecer a culpa que sentiam a cada encontro.

No hotel, pela primeira vez ela o viu dormindo. Sentiu a felicidade mais completa que existia. Observou com cuidado cada detalhe de seu rosto. Desejou que aquele momento perdurasse por toda vida. Na verdade, “trocaria a eternidade por aquela noite”.

Cobriu o ombro descoberto, se levantou e escolheu a roupa que ele vestiria no dia seguinte: camisa azul, calça preta. Abriu a bolsa e pegou seu batom mais bonito. Foi embora depois de escrever com ele no espelho: Amo você pra sempre...

Ele deve ter limpado a frase após lavar o rosto, ou então a camareira o fez depois de admirar a declaração tão simples e sincera. Talvez ele nem se lembre mais disso, mas a marca no espelho continua ali, intacta à memória. E toda vez que o vapor do banheiro se espalhar pelo quarto, aquela mensagem ressurgirá, pois o espelho, assim como a pele, pode esconder uma cicatriz profunda, mas nem mesmo o tempo é capaz de apagar uma história que vivemos e nos entregamos. Há coisas que não sai de nós mesmos porque se soma como pedaços de carne, pedaços de sonhos. E não adianta fugir ou tentar esquecer. O medo um dia vai embora e o que fica é isso, a marca.

 



Escrito por Érica Marin às 22h55
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