Domando leões



A verdadeira terapia

 

Alice era mulher como outra qualquer. Independente, bonita, atraente. Gostava de sair à noite, de dançar, de beber, de fumar. Gostava de dirigir pela cidade, de trabalhar e receber elogios por sua beleza e claro, sua inteligência (que considerava seu melhor atrativo). Mas no fundo, bem no fundo, onde nem ela mesma era capaz de admitir, sonhava mesmo era em se casar, ter uma casa com violetas floridas e filhos educados e amorosos. Alice sonhava, mas em segredo.

Segredo porque já estava cansada de suas frustrações com relacionamentos anteriores, cansada de suas expectativas ideológicas e irreais de encontrar um homem que a entendesse e a completasse. Na verdade, nos últimos tempos ela se convencera de que isso não existia e aproveitava a vida à sua maneira. Ainda era tão nova pra algumas coisas, mas sempre que pensava no futuro, se sentia sem tempo para realizar tanta coisa que planejava. Era como se uma linha do tempo se formasse em sua imaginação e isso a deixava desesperada.

Mas, desesperada mesmo ela ficava quando se via cometendo erros de carência, como inevitavelmente aconteciam vez ou outra. E era sempre a mesma história: no auge de sua solidão, se arrumava, saia, bebia e ficava com alguém. O problema vinha no dia seguinte, ao ter que dizer ao tal carinha que ela já não queria mais. Não gostava de brincar com os sentimentos alheios, mas ainda não estava pronta para se entregar. Estava confusa, fechada pra balanço talvez. Mas ainda assim, Alice odiava se sentir sozinha e então, o mesmo erro prosseguia.

Como não gostava de encarar os fatos, por mais obvios que eles fossem, não procurava ajuda de terapeutas. Imagina! Uma mulher tão auto-suficiente como ela! – pensava.

Ia ao shopping fazer compras. Essa era uma forma tão famosa de esquecer a tristeza!

Nas primeiras aquisições até funcionou, mas depois, ainda que olhasse com muita empolgação para o par de sapatos de couro envernizado novinho que acabara de pagar, não conseguia esquecer seus problemas, ou a falta deles, como o conserto do botão da camisa do marido, a lição de casa do filho, a falta de tempo para o supermercado. Enfim, tudo que via acontecer com as amigas de infância, que já estavam todas casadas e resolvidíssimas enquanto ela ainda se achava uma adolescente.

Isso podia até ser uma carência passageira, afinal, não queria também que sua vida se resumisse ao lar e suas rotinas, mas certamente estava começando a enxergar a vida de forma mais madura e centrada.

Foi aí então que pensou em escrever.

Comprou alguns cadernos para rascunhar, e quando viu já estava na quinta página. Decidiu escrever no computador para agilizar e consequentemente, transformou seus arquivos de word em históricos de uma página gratuita da internet. Assim surgiu sua terapia concreta: textos fictícios ou não que exprimiam seus pensamentos mais ocultos na rede atual mais explícita que existe: os blog’s.

 

 

* E ah! Alice resolveu dar tempo ao tempo! Nada melhor que o acaso para lhe trazer ótimas novidades e companhias. Continua no país das maravilhas, mas desta vez, com a exata noção das imperfeições mundanas, alheias e próprias.

 



Escrito por Érica Marin às 19h45
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