Fadiga
Cansei de ser a santa, mas cansei mesmo é de ser o demônio.
Cansei de culpar os outros, mas cansei mais ainda de culpar a mim mesma.
Na verdade, cansei de ser a má da história. A madrasta com ares de princesa.
Não sou, nem nunca fui.
Sou meus erros e acertos, como todo mundo é, ou deveria ser, pois tem gente que se esquece disso.
Já menti por medo, já menti por amor, já menti por vergonha. Já omiti por tudo isso também, mas nunca soube amar de mentirinha, sempre e invariavelmente.
Quando estou, estou mesmo, não de brincadeira. Quando sinto me exponho, me entrego, falo, choro, grito, bato, apanho.
Não durmo com a dúvida de não ter feito o que podia, pois normalmente luto até o fim e até quebrarem todas as minhas armas. Desistir da batalha por falta de forças? Nunca. Odeio gente covarde e fraca.
Só desisto quando não quero mais ganhar; quando o prêmio já não tem mais o brilho de antes.
Na verdade para isso acontecer é mais rápido que o bater das asas de uma borboleta. Sou instável e me apaixono todos os dias. Gosto da idealização das grandes paixões, do sufoco. Se sinto estabilidade, fujo – apesar de querer tê-la – não consigo viver assim. Quero arder, quero prazer, quero ser.
Quem foi que disse que preciso de calma? Prefiro a emoção, o suspiro e o tremor, o nervoso.
Sou o calor, e odeio o frio.
Sou a noite misteriosa, e odeio o dia comum.
Sou o poder, e odeio a mesmice.
Porque sou o negro e não me interesso pelo claro.