Domando leões



O gosto que ficou

 

-         Vai para o inferno! – disse ela, saindo do carro no farol vermelho, atravessando a rua pisando fundo.

Ele arrancou com o carro, cantando os pneus.

 

As lágrimas escorriam pela face furiosa e maquiada. O coração parecia pular pela boca, as pernas tremiam. Ele era um homem horrível, ela o odiava naquele momento. Mas também era o homem mais lindo que já vira, o amor da sua vida. O contraste entre os sentimentos a deixava tão confusa que o oxigênio mal conseguia chegar ao seu cérebro. Por sorte não desmaiou pelas calçadas que apareciam em sua frente instantaneamente.

Mais uma vez se sentia fraca, imatura, culpada.

Sempre as mesmas brigas, as inúmeras discussões, as críticas, a impotência diante das atitudes tão previsíveis dele. O caminho de volta pra casa já não era mais doce como antes e isso a entristecia.

Decidiu ligar. Queria consertar os erros, terminar a história de forma que não se arrependesse ao se deitar na cama. Após muitas tentativas ele atendeu:

-         O que você quer?

-         Onde você está?

-         No inferno! Não foi pra lá que você me mandou ir?

 

“Seria engraçado se não fosse trágico”, pensou.

 

-         Volta!

 

E assim se fez. Ora choro, ora sorriso. Ora ódio, ora amor.

Assim se fez o céu, mas também assim se construiu o inferno. O fictício, o real.

E assim nos perdemos.

O adeus jamais existiu, assim como um sim ou um não. As paredes é que não saíram do lugar.

De tudo, somente as fotos. 

E o gosto que ficou, somente eu sei. Ou quem sabe, somente nós dois sabemos.

 



Escrito por Érica Marin às 06h20
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