É preciso voar
Gosto de borboletas. Gosto de vê-las voando. E gosto ainda mais quando me sinto uma delas.
Mas para que chegasse até aqui, foi preciso queimar as asas nas lâmpadas que me fascinaram, foi preciso cair, foi preciso me curar.
É claro que me pergunto o porquê de tudo isso, mas é claro também que não possuo as respostas para minhas muitas dúvidas. E essas respostas podem vir com o tempo, ou quem sabe, nunca chegar. Só quem sabe a que se deve o acaso é quem comanda a vida.
O bater das asas volta mais cedo ou mais tarde visando alcançar o céu.
Livre.
O quebrar dos vidros, o refazer dos sonhos, a alegria de contagiar aos outros e a si mesma com aquele sabor de se doar e de receber de volta. Reciprocidade, amizade, carinho.
É preciso voar. É preciso compreender. É preciso perdoar. É preciso amar. É preciso viver.
Despedida
- Vai ser melhor pra mim!
- Eu sei! – disse ele, com lágrimas nos olhos.
Queria chorar e a vontade era quase incontrolável, mas resistiu. Queria beijá-la também, como por vezes fez em impulsos sutis e espontâneos, mas se conteve, como, aliás, fazia com exímia eficácia nos últimos tempos.
Ela estava indo embora. Dessa vez para sempre. Tão para sempre como aquelas inúmeras cartas de amor que mandavam e recebiam. Tão para sempre como todas as promessas que faziam. Tão para sempre como a vida longínqua que pensavam juntos. Mas, como nem todo pensamento também é para sempre, ela agora partia.
Não podia esconder sua felicidade em deixar tudo para trás, enquanto ele se esforçava a cada sorriso em demonstrar naturalidade.
- Boa sorte!
- Obrigada!
Pegou a pequena caixa e saiu. Duas violetas e alguns pertences - era tudo o que restava.
Entrou no carro calada. Foi assim por todo caminho, até acomodar as plantas de forma delicada e carinhosa.
Dois anos e tudo aquilo. Sua vida nunca passara por tantas turbulências. De fato mudara muito, mas agora estava quase completa. Só faltavam alguns detalhes.
De tudo conservaria apenas uma coisa: os tais olhos cor-de-mel que combinavam com as sobrancelhas.
Seu cabelo longo espalhado pelo travesseiro era tocado angelicalmente e o alívio era tanto que adormeceu sem dizer uma palavra. Sabia que quando acordasse tudo estaria apenas na memória e os potes reservados no armário conteriam apenas pessoas doces. Era essa sua nova vida, ao menos por enquanto.
Escrito por Érica Marin às 22h21
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