Domando leões



Anjos à espera

 

Ana Clarah, era esse o nome dela. Parecia feita de cera, mas não era. Também não era uma boneca, apesar de parecer. Era um anjo.

Um anjo entre tantos, na fila de uma encarnação. Ansiosa para vir a terra, ansiosa em cumprir sua missão. Mas para isso era necessário muito mais que vontade – era necessário ser desejada.

E Ana se frustrava toda vez que mais um namoro de sua futura mãe se rompia.

Torcia tanto para que as coisas dessem certo que por vezes foi o próprio cupido e se fez com minucioso empenho neste papel, mas nada. Parecia que ela – a mãe – não se sentia muito à vontade com a idéia de compromissos sérios e longínquos ou então eram os relacionamentos em si que não funcionavam direito. E lá se ia mais uma chance de nascer.

Mas Aninha – como era chamada pelos outros anjos – não se conformava.

Os meses passavam rapidamente e o inverno logo chegou. Em mais uma noite de cinema na Augusta, a mãe de Clarah não resistiu à bebida que mais gostava.

 - Um mate-com-leite, por favor!

A voz dela saiu em dueto com a de um rapaz ao seu lado. Olhou e viu que além do gosto pela bebida, que agora era quente pelo frio da cidade, tinha algo em comum com ele. Talvez a cor dos olhos, ou do cabelo. Riram da coincidência da frase e como estavam sozinhos, decidiram tomá-los juntos. E as afinidades não pararam por aí.

Foram citados filmes, livros, exposições e experiências de vida. Maurício era realmente um homem encantador e parecia a entender majestosamente, a compreendendo em seus devaneios, tristezas e ambições literárias. Ele, contador, ela, jornalista.

No momento em que menos esperava, Clarah finalmente tinha a possibilidade de dar uma mãozinha ao destino e colaborar com essa história, para que dessa vez o final fosse feliz. E lá em cima, no alto de suas energias astrais, não somente torcia, como também ansiava pelo desfecho.

Assim são os anjos à espera de uma oportunidade. Zelam, torcem, se entristecem com as nossas atitudes, mas buscam e se enchem de esperança a cada novo encontro. Na verdade, eles constróem parte das histórias e são os verdadeiros responsáveis pelo amor e pelo perdão.

Está certo que nem sempre dão sorte ou acertam. Nem sempre nós humanos correspondemos às suas expectativas e os decepcionamos imensamente, mas aí é que está a diferença entre seres terrestres e celestiais. Eles não se cansam e jamais perdem a fé.

Aninha continua na fila, mas sabe-se perto de realizar finalmente seu sonho. E eles, sua mãe e Maurício, desfrutam os sonhos que sem querer começaram a brotar por acidente do acaso. A prova concreta de que destino é mais que uma palavra, é um caminho.

 

“Não é a criança que vem ao mundo, mas sim o mundo que vem para a criança. Nascer é receber de presente o mundo inteiro”.

                                                                                  (Jostein Gaarder)



Escrito por Érica Marin às 22h50
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Todo tempo

 

Os relógios enlouquecem, talvez como nós mesmos com o passar inevitável das horas. Os dias se somam à história, mostrando que cada minuto pode transformar seu pensamento através de atitudes, suas e das pessoas que te cercam. Estamos, desde que viemos ao mundo, sujeitos ao tempo, todo tempo.

Sujeitos às escolhas, às dúvidas e certezas, constantemente inconstantes ou imutáveis, alternando entre variações que independem de nossas vontades e submersos em oceanos invisíveis e interiores.

Marcam-se as datas, mas jamais o que nelas ocorrem, de forma que todo e qualquer esforço pode ser em vão quando o tempo te traz ou te move conceitos pré-fabricados. A antiga máquina de controle agora serve para te despertar do sono, mas não da cegueira.

Um dia derreteremos todos os relógios do mundo, um a um, e somente assim é que estaremos realmente acordados.

 



Escrito por Érica Marin às 00h40
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