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Frente ao novo espelho
O cabelo preso mostrava a nuca. Os olhos verdes marcados pelo rímel e as bochechas rosadas davam um ar saudável e juvenil. Colocou a pulseira preta e branca que há tempos não colocava, o salto alto e saiu de casa com um ar celestial. Sentia uma liberdade inexplicável. Na verdade ela estava se libertando de uma prisão mental e isso a enchia de felicidade. Uma prisão diferente, de lençóis de seda, palavras carinhosas e vazias, créditos em conta.
Não entendia nada do que estava acontecendo, mas já não queria entender. A sensação de poder fazer o que quisesse a entusiasmava, e não iria deixar que pensamentos filosóficos a atrapalhassem dessa vez.
Fazia planos para o futuro, mas tão diferentes agora. Queria ir para Londres, talvez Madrid. Porém, no momento apenas planejava fazer as unhas no sábado e sair para dançar como antigamente.
É, ela estava de volta. Sem satisfações, cobranças, pesos, discussões. Sem críticas, finalmente.
Poderia criar suas teorias em paz e encontrar a razão maior de sua vida, se é que já não a tinha encontrado. Saboreava com gosto cada página dos livros novos e contemplava a força que estava escondendo de si mesma nos últimos meses.
Isso era a verdadeira felicidade: poder ser ela mesma sem se culpar por isso. Contudo, até o espelho já não era mais o mesmo - estava mais colorido, mais animado. Talvez agora refletisse apenas sua imagem, aquela única, individual, insubstituível.
“Nós enxergamos tudo num espelho, obscuramente. Às vezes conseguimos espiar através do espelho e ter uma visão de como são as coisas do outro lado. Se conseguíssemos polir mais esse espelho, veríamos muito mais coisas. Porém não enxergaríamos mais a nós mesmos”.
(Jostein Gaarder)

De onde vem a força
Acordei, como todo mês, com uma dor que além de me deixar sem ar, me contorcia pela cama. Travesseiro apertado, bolsa de água quente, remédio; nada disso fazia efeito. Malditas sejam as cólicas!
E como se não bastasse, ainda tinha que ajeitar o café da manhã, fazer supermercado, levar a filha à escola, inspecionar o trabalho da diarista, vestir a roupa apertada e o sapato de salto, trabalhar o dia inteiro, almoçar em dez minutos, ir ao salão de cabeleireiro e ficar linda para um jantar de negócios do marido à noite.
Era como se na mesa bem arrumada, repleta de pessoas inteligentes e gentis que falam o tempo todo em como os investimentos valem a pena, a minha dor tivesse passado, mas não - estava apenas maquiada, literalmente, no rosto e na espontaneidade de sorrir mesmo querendo chorar.
Ao chegar em casa, animado pelo vestido preto que me deixava atraente, ele ainda tentou fazer amor. Como? Eu pergunto – uma vez que não conseguia nem pensar com tamanha fragilidade e raiva (sim, porque nada mais irritante do que estar na TPM!).
Não é falta de amor, de atração física. Não é que o relacionamento está esfriando, nem tampouco que exista outra pessoa. Sou eu, minhas estranhezas de mulher e minha pura e inocente vontade de me deitar de lado, me encolher como um feto na barriga da mãe e dormir, dormir como um anjinho. Até claro, o despertador insuportável disparar aquele som terrível e começar tudo de novo.
Tentei explicar, respirei fundo e tive todo cuidado do mundo nas palavras. Se ele não entendeu, ao menos foi bem convincente. E quando tudo parecia estar caminhando bem, no meu cochilo costumeiro que antecede o sono, com as mãos macias dele acariciando a minha orelha, ela grita.
Sim, a bebê queria mamar! E como nesta tarefa não há marido que possa ajudar, lá vou eu, capotando de sono.
Já sei toda a programação da Tv de madrugada. E aprendi como mãe de primeira viagem, como é a agonia de um seio que se parte pela falta de costume em amamentar. A cada sugada, a vontade de gritar misturada com o carinho inabalável de ver aquele rostinho tão pequeno matando sua fome.
Bem-vinda ao mundo real! – é o que as pessoas mais maduras me dizem e eu mesma começo a aceitar.
Mas tenho que admitir que apesar de trabalhoso e cansativo, nenhuma compra no shopping me fez mais feliz do que todo esse mundo novo que se abre a cada dia. Experiências únicas que me tornam mulher com M em cada lágrima, sorriso, destempero e zelo.
Ao pensar assim qualquer cólica se torna pequena. Deve ser por isso que dizem que as mulheres são fortes: porque sempre vêem o lado positivo, fazendo a beleza do amor ser maior que qualquer dor que possam sentir, transcendendo os limites de si mesmas para viabilizar a família, a vida.
Escrito por Érica Marin às 01h21
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Enquanto a luz não se apaga
Não é só a lua que é feita de fases. Dizem que as mulheres também, mas na verdade somos todos feitos de centenas de fases, de subidas e quedas.
Não somente isso, somos todos sonhadores utópicos em busca da felicidade, mas nem sempre ela está onde pensávamos. É exatamente assim que quebramos a cara. E exatamente assim também é que nos reerguemos e mudamos a estratégia. O roteiro de sempre que cansa passa a ter nova forma e a estrada já não é mais a mesma.
Mas nem nós mesmos somos eternamente iguais, nosso corpo, nossos pensamentos, nossos planos. Tudo muda, tudo soma, tudo subtrai. E o que fica são os memoráveis momentos. Pedaços, como sempre digo. E somos, sem dúvida ou vergonha, apenas pedaços de carne costurados com retalhos de pessoas importantes.
À essas pessoas é que normalmente levantamos pela manhã e nos vestimos, nos dedicamos ao trabalho, aos estudos e na construção de nossa sabedoria para podermos nos tornar capazes de levantar a cabeça um dia e saber que fomos pessoas dignas. À essas pessoas que lemos todos os livros, escrevemos cada texto, ouvimos cada música, admiramos cada flor. E não distante, à essas pessoas que abdicamos.
À elas e a nós mesmos. Ao tudo e ao nada.
Abdicamos da razão, das palavras ditas e reditas, dos sonhos puros que se tornam martírios invisíveis de culpa e frustração. E abdicamos porque não encontramos outra saída senão fechar a cortina, pegar a valise e ir embora sem olhar para trás.
De bagagem apenas elas, as recordações, as fotos, os bichinhos de pelúcia e os lugares. Porque por mais que joguemos todos eles fora em sacos de lixo preto, jamais se apaga o que se vive, por mais que isso te consuma pouco a pouco, dia-a-dia.
E assim a vida se segue. Ora feliz, ora triste. Ora te dando aquilo que você tanto quis, ou quem sabe o que nem esperava. Ora te roubando o que lhe era mais valioso, ou tirando o que não lhe era devido. No final, seremos apenas almas. Algumas vagas, outras compostas. Almas que aprenderam ou almas que se recusaram a lição. E teremos pela frente ainda muito o que passar, até que Ele saiba quando parar. Enquanto isso não adianta fugir, não adianta se entregar, mas há de aceitar e aguardar a cura, pois a sanidade dura o tempo próprio que a luz ainda pode brilhar.

Santo pão
As folhas caídas na tarde de outono faziam um barulho suave, como o desembrulhar de um presente. Sexta-feira, treze de junho, dia de Santo Antônio.
Não que ela acreditasse nessas coisas, mas não custava solicitar uma ajudinha divina, afinal passara mais uma vez o dia anterior, dos Namorados, sozinha.
O fato não era o dia em si, nem as pessoas que não se desgrudavam nas ruas e os corações espalhados pelas lojas dos shoppings. Não eram as flores que saltavam lindas e sorridentes aos seus olhos na floricultura e muito menos aquela noite gostosa que fazia convite a um bom drinque de maracujá. A culpa era do seu gênio, ou quem sabe, do destino que fugia de suas mãos e seus poderes.
Apesar de se achar gorda durante toda tpm, de querer ter mais cinco centímetros de altura e menos cinco de cintura, ela se achava bonita. Assim, meio sem jeito, atrapalhada e espalhafatosa, mas bonita. O jeito com que gesticulava as mãos quando falava chamava a atenção dos homens, mas ela definitivamente não se achava apaixonante. Era mandona, orgulhosa, e isso afastava dela os relacionamentos de longa duração. Quando não eram eles que se cansavam de tanta exigência, era ela.
Mas quer saber? Nem ligava. Ou ao menos, demonstrava que não.
Porém, lá no fundo dormia um choro entalado de quem, mais uma vez, teve seu sonho interrompido. Fazer o quê? – se questionava. E assim, nunca dera sequer o braço a torcer e disse a verdade a eles. Achava inútil se humilhar pela atenção do sexo oposto, uma vez que são todos iguais.
Mas, parece que antes tudo isso era mais fácil. De uns tempos pra cá a sua sensibilidade havia aumentado. Será por causa da idade? Será que porque todas as suas amigas já estavam casadas e com filhos e ela ainda nem sabia dizer o que era ter uma aliança dourada na mão?
Na verdade ela só sabia sobre o aumento dos preços no supermercado, sobre a alta do dólar e sobre o governo Lula. Sabia sobre todas as marcas de sapato e os preços das bolsas da Daslu. Sabia tanto e ao mesmo tão pouco que se sentia burra quando em festas de família o assunto era casa e marido. Para rebater suas deficiências dizia ser independente e tentava se enganar: “isso tudo é bobagem”.
Talvez fosse apenas uma reação natural da modernidade, ou quem sabe uma inspiração exagerada daquelas capas de revistas femininas, onde esquecem que antes de ser uma profissional, a mulher tem desejos de mulher e suas necessidades prioritárias como amor e carinho, pois ninguém no mundo pode ser feliz sozinha. E era exatamente nisso que ela estava pensando no bendito dia do tal santo casamenteiro. Se fosse besteira ou não, dessa vez iria arriscar e decidiu fazer uma promessa.
Foi à igreja e entrou em uma fila gigantesca em busca de um mísero pedacinho de pão velho, tal qual aprendera ali o significado: fazia milagres!
Não acreditava muito, mas deveria haver algum sentido para que aquelas centenas de solteiras se sacrificassem naquela fila e então, agüentou firmemente a espera.
Chegando sua vez tentou imaginar como ela comeria o tal pedaço, que não parecia nada com um belo lanche do Mac Donald’s. Entrou na primeira padaria que enxergara para com um copo de leite poder cumprir a missão e atingir o milagre de não ficar para titia. Ao seu lado no balcão um homem ria ao notar o pedaço de pão em suas mãos e interliga-lo à imensa fila do lado de fora. Ela nem percebeu, e ao pedir o leite, ele pediu o café, em uma sincronia de palavras surpreendente.
Pois é, ele era o café, ela o leite. Visivelmente diferentes. Ele alto, ela baixa. Ele sério, ela cativante. Começaram a conversar e ela lhe contou sua aventura atrás do pequeno pãozinho. Pela primeira vez foi sincera com um desconhecido sem ter intenções. Ele se divertia a cada palavra que ouvia e a achou interessante por isso mesmo, o humor simples de uma mulher comum. A beleza ali nem era tão importante, mas não seria mentira afirmar que ambos haviam notado os pontos físicos que lhe agradavam mutuamente.
Trocaram telefone, marcaram alguns drinques e conversavam de tudo a cada novo encontro, até que em uma bela noite de outono, dia de Santo Antônio, há exatamente um ano após terem se conhecido, começaram a namorar. Se casaram e agora estão ansiosos pelo nascimento do primeiro filho, que se chamará – como não poderia deixar de ser – Antônio, em homenagem ao santo que os uniu.
Hoje ela ministra palestras motivacionais para as solteiras que ainda não encontraram o príncipe encantado. Conta sua história, incentiva a autoconfiança e o acaso e diz que o segredo é aguardar o momento certo para florir. Continua não acreditando em superstições, mas todo o ano não deixa de ofertar uma vela cor-de-rosa (cor do amor) a ele que se tornou seu santinho de devoção. Coloca tudo no altar que fez seu marido construir em casa junto a um pedaço de papel com a frase: “Agradeço o milagre recebido”.
Escrito por Érica Marin às 00h41
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