Domando leões



Incondicional

 

Seria mentira se dissesse que só vislumbro o feio. Admiro a beleza e a sinto leve em meus dias. Contida em livros, fotos, filmes, textos, quadros e toda forma válida de expressão, vejo o quanto há ainda por vir. E por mais que tente me convencer que não, ainda acredito na bondade. E o amor.

Hoje, dia dos namorados, pode parecer clichê falar sobre ele, esse sentimento capaz de nos levar ao céu e ao inferno ao mesmo tempo, mas falemos e sejamos clichês então.

E já que o amor anda tão banalizado, falemos do melhor: o incondicional.

Aplicável no amor materno – ao menos naquele de fato – e alguns raros encontros entre casais, inabalavelmente une ou se mantém ainda que distante. E se acredito nele, é porque já tive provas concretas de que existe, senão, diante de meu ceticismo e niilismo já teria se dissolvido. Provas não, tenho exemplos. Exemplos vivos e diários como meus avós. Saborearam a vida jovem e agora aguardam com serenidade o fim de todas as fases, passadas majoritariamente juntos, e mais que isso, divididos. Na verdade eles são pedaços um do outro que jamais serão separados, mostrando através do tempo que a felicidade conjunta e a construção de uma vida amorosa feliz é possível. Está certo que os tempos são outros e agora tudo anda muito confuso, mas sabe-se lá o quê esperar do destino ou da infinita sabedoria dos deuses, que devem estar a um pensamento de distância de nós, e um pensamento longínquo demais para que possamos alcançá-los.

Para isso, mais que um dia que os casais saem para comemorar, comprar flores e champanhe ou simplesmente nem se recordar – pois nem todo mundo é romântico – a análise deveria começar de dentro para fora a fim de comprovar se estamos sendo incondicionais. Amar sem a pretensão de receber o amor da mesma forma, ter paciência para esperar o tempo do outro e a maturidade que nem sempre chega aos dois de uma só vez e a constatação de que uma vida não se faz de minutos tensos.

Queria com esse, apenas homenagear o amor sem palavras, sem cartas e sem presentes. O amor que antes de nos tornarmos adultos, já existia. Aquele que conheci quando ainda era uma garota que corria pelo sítio do meu avô. Falo deste mesmo, falo dele. Falo do amor que sempre senti, mas que nunca ouvi ou falei. Falo do que sempre presenciei. Do casamento antigo, dos filhos criados com tanto esforço, da educação exemplar, do silêncio que muito ensina, da coragem com os problemas, da força diante das perdas, da fé diante de Deus. E da calma, da aceitação que sufoca o desespero e que nos faz ver que jamais estaremos longe, ainda que separados pela distância e pelas muitas vidas.

Este homem faz parte da beleza primordial da vida e da integridade que poucos conhecem. Faz parte de mim, e fará sempre. Meu avô, mais que um namorado que ame com intensidade e carinho, merece especial atenção e é a ele que dedico todo meu pensamento e todo meu amor incondicional neste dia.

 


 

 

O Segredo

 

Tenho que admitir que admiro a forma das pessoas se comportarem. Estão sempre alegres, ou fingem estar. Estão sempre dispostas, ou fingem estar. Na verdade acho que admiro mesmo é esse dom de fingir que elas tem. Será que assistem muita novela e querem trazer à vida real um pouco de ficção e artes cênicas?

Não me considero uma pessoa adaptável, muito pelo contrário, e desta forma as passagens na minha vida se tornam únicas, independente do tempo em que acontecem.

Embora não seja mais uma adolescente há algum tempo, ultimamente tenho tido experiências que me fazem descobrir o quanto não tinha visão nenhuma desse mundo “adulto” em que vivemos, e o que mais me chamou a atenção foi a vida profissional.

Os adultos se esquecem de tudo que foram quando crianças e adolescentes e de tudo que aprenderam em casa, passando a se comportar da maneira mais egocêntrica possível quando começam a trabalhar. Eles não se importam mais com as pessoas em si, mas com os números que elas serão capazes de produzir ou não. Passam a se sentir importantes, auto-suficientes e de uma inteligência insubstituível, mesmo quando cometem os maiores erros de português já vistos. Isso sem contar a hipocrisia e falsidade existentes nesse meio. Todo mundo se odeia e vive aos corredores e toilette’s falando mal reciprocamente, mas se abraçam, se beijam e trocam apelidos carinhosos durante o expediente. No fundo, quando te perguntam se você têm se sentido bem, querem mesmo é saber das novidades, dos baffon’s para contar aos demais. E pra eles, essa característica é natural e necessária para se “crescer” na empresa.

Discordo dessa tese. Aliás, discordo com toda minha força desse capitalismo ridículo que vemos todos os dias. É um absurdo sermos tratados assim, como máquinas de serviços gerais alienadas e sorridentes. Acho absurdo também, e vergonhoso, uma pessoa racional comprar um livro intitulado “O Segredo”, quando na verdade o que esse best-seller americanizado diz é aquilo que estamos cansados de saber: “o pensamento tem poder”. Será que foi preciso escrever 350 páginas para citar uma frase? Ou fazer um documentário extenso e cansativo para reafirmar a mesma coisa? E o pior é que as pessoas que se acham inteligentes pensam que isso é o máximo. Não é engraçado?

Na verdade o segredo é um só: caráter. Aquele que aprendemos quando ainda nem sabemos andar. Aquele que trazemos dentro de nós mesmos através dos anos e mostramos no dia-a-dia, nas atitudes no trabalho, em casa, na faculdade, com os amigos, com as crianças. Aquele que por vezes está escondido nos bolsos dos paletós ou nas bolsas de couro. Aquele que muita gente não sabe ao menos o significado e ainda que procure no Aurélio, não irá entender.

Alienação, burrice, insensibilidade, auto-suficiência e arrogância fazem o mundo corporativo dos dias atuais e isso lamentavelmente é tido como natural pelas pessoas, pois a acomodação ou o interesse pelo poder falam mais alto que a vontade de uma vida simples e feliz. O riso sem motivo é mecanizado e facilmente encontrado nos escritórios. Uma pena que a sinceridade tenha sido eliminada através de circulares sem sentido.

 



Escrito por Érica Marin às 21h44
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Felicidade barata

 

Descobri o que é felicidade!

Felicidade são sorrisos.

Sorrisos nas festas, nos bares, no trabalho, nas ruas, nas fotos, na internet. Sorriso em todos os lugares que estamos, em tudo o que pensamos (se pensamos), tudo que fazemos. Sorrir é ser feliz!

Não importa o que sente de verdade, o importante é sorrir.

Hoje esse é o prato do dia: felicidade barata. Aquela que se compra em qualquer esquina movimentada, em qualquer bar da moda, em qualquer vitrine cara ou em qualquer menção de populariedade.

Sorriso no rosto e olhar parado, feito boneco inflável e oco.

As pessoas estão ficando mais burras a cada dia, ou então se cansaram de pensar. Resolveram então sorrir, ou rir. Talvez assim se sintam mais bonitas, inteligentes, admiradas. Talvez isso supra seus egos e as auto-afirmem em uma sociedade tão complicada. 

É impossível ser feliz o tempo todo, e é uma pena que a maioria das pessoas não assuma isso aos outros e a si mesmas, em uma cobrança irreal e desleal. 

Esse pode ser um dos fatores das depressões, o fato de que temos que estar sempre felizes e sorridentes, como garotos-propaganda de cremes dentais. 

Mas não somos assim, tão perfeitos. E jamais seremos, pois somos humanos. Lamentavelmente.  

"Feliz daquele que sabe sofrer."

 



Escrito por Érica Marin às 05h21
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