Domando leões



 

Superficial

 

Há dias percebo uma prisão de pensamentos insistentes. E essa insistência toda, tão degradada, me agride pouco a pouco como tapas do cotidiano de uma vida sem graça e rotineira, típica daquelas mulheres que sempre abominei.

Mas essa adversidade de posturas se faz tão gratuitamente que não consigo explicar sua existência, tampouco saber onde foi que ela começou dentro da minha mente embaralhada.

Angústias de uma melancolia exacerbada ou a constatação de que não sou mais uma menina cheia de sonhos cor-de-rosa e imbecis contos de fadas que não servem para nada, além de esconder a realidade da vida.

Sobrevivi. Só percebi isso quando finalmente coloquei minha cabeça fora d’água e consegui respirar.

Na verdade a capacidade nos últimos tempos fora ampliada em mil vezes. Me desvencilhei do orgulho, e isso era por todos meu maior defeito, agora não mais existente.

Os gritos que ouvia estavam amortecidos pela queda, que absurdamente não me assusta mais. Sim, breves, frios e lentos, eles estavam todos lá, empilhados em um calendário como livros na minha sonhada biblioteca imaginária: os dias.

Superficial, observo a degradação da imagem altiva e contemplo a superioridade que nem imaginava existir pela inteligência simples. Nem era tudo aquilo que esperava, na mais alta ilusão de ótica. Assim, nem o desprezo e a palidez são notados.

Um nada constante de mutações ansiando pelo tudo.

É justo e necessário, pecaminoso e suave. Doía como facas. E o cérebro disfuncional entrava em ação, apagando qualquer vestígio de sanidade mental ou emocional.

O quadro não parecia mais verdadeiro como antes e as palavras eram todas mentiras prontas e enlatadas, prestes a serem consumidas dentro de um prazo chulo de validade.

E eu ainda me questionava tanto. Ainda me fazia perguntas infindáveis sobre uma existência particularmente interessante e dispersa, enquanto o que aparecia na tela era um montante de carne novo e feio, maltratado pelo excesso de química, água oxigenada e burrice ostentando risos desenfreados e histéricos. Pois é, vulgarização e banalização das posses. Mas mal sabia o quanto era doce.

Minha filha ficara então, desapontada comigo. O anjo de cabelos castanho-claro ainda repousava suas asas sobre nós dois.

Enquanto isso me perdia ainda mais de mim. Por entre esquinas, cidades, países ou estados, psíquicos talvez, inertes ou esquecidos pelos famosos lapsos de memória. Culpados ou inocentes da maior batalha do mundo, o dizer não aos valores ocidentais de uma cultura moralista e démodé. E eu que acreditava que a modernidade era o livre arbítrio pude notar que nem sempre o extinguir dos valores vale a pena.

"O que sinto, não ajo. 

O que acho, não penso.

O que penso, não sinto.

Do que sei sou ignorante.

Do que sinto não ignoro.

Não me entendo e ajo como se me entendesse."

(Clarisse Lispector)


Opção

 

Ainda penso que os seres humanos é que deveriam viver atrás das grades, e não eles.  

Somos capazes das maiores atrocidades sem o menor motivo, enquanto os que chamamos de “bichos irracionais” só demonstram algum perigo quando encurralados. Pense no zoológico. Se imagine do outro lado, sendo devastado por olhares curiosos. Você não se cansaria?

Até onde agüentaria?

Esqueceria o instinto e se entregaria à mordomia de comer no horário todos os dias ou iria lutar por sua liberdade, ainda que fosse em vão?

Se compararmos, veremos o quanto podemos estar em situações parecidíssimas com as deles. Estamos em jaulas invisíveis, manipulados pelo poder, pela mídia e pelo egocentrismo, nos expondo em orkut’s, sendo julgados por olhares impiedosos e entregando nossa personalidade a custa de bananas. Mas eles não têm opção. E nós, será que ainda temos?

 



Escrito por Érica Marin às 21h13
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