Domando leões



Só a bailarina que não tem

 

Pegou a mochila e olhou no relógio. Mais um dia atrasada.

Tomou o café em um gole e com as chaves nas mãos saiu afobada. Era dia de balé, de se sentir a boneca mais linda do mundo, a menina que não tinha problemas, a majestade. A roupa rosa e delicada apenas confirmava o que todos já sabiam: a bailarina é perfeita.

Não havia nada no mundo que pudesse tirar aquela imagem tão bela dos seus pés rodopiando suavemente o assoalho de madeira e ela, ainda que por dentro não estivesse bem, se esquecia até mesmo que era ser humano e se entregava ao som, aos movimentos, aos sonhos.

Sentia-se demasiadamente grande e altiva naquele instante, apesar de ser a mais baixa do colégio. Era de fato leve, feita de pano, e assistia o decorrer de sua idade assim, como telespectadora à frente da televisão de sua vida.  Como companhia apenas Sophia, sua fiel gata cinza. Como companhia a infinita solidão e a força de seus pensamentos.

E enquanto saboreava o gosto de tudo isso, era observada pela felina em silêncio.

Clarah estava doente. Mais do que esperava, menos do que parecia. Mas persistia e jamais iria deixar que a olhassem com piedade. Não ela.

Ao terminar a tenra valsa, caiu no chão e no choro. Suas pernas já não eram mais as mesmas. Mas, na tentativa de se animar lembrou que de todas, era a mais bonita das meninas de sua idade. Beleza; o que faria com ela agora?

Era na verdade como uma obra de arte que se vê, se admira, mas que jamais se pode tocar. Era a bailarina e nada mais poderia fazer senão, dançar. 

 



Escrito por Érica Marin às 01h10
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Mundo globalizado?

 

É comum ouvir por aí a sandice de que o mundo e as empresas agora estão se globalizando e se preocupando com o desenvolvimento sustentável. Todos os dias notas e mais notas são publicadas aos montes, feitas através de releases direcionados das assessorias e/ ou departamentos de marketing ressaltando os bons relacionamentos interpessoais, o respeito ao meio-ambiente e a felicidade global. Pura mentira. Na verdade as empresas continuam como sempre foram e se importam com a mesma coisa que se importaram desde o início dos tempos: dinheiro.

Ninguém passa de números, e Luiz Marins que me perdoe, mas dizer que fazemos alguma diferença é pura bobagem, uma vez que há milhares de desempregados no país dispostos a ocupar nosso lugar pelo terço do salário. Isso, sem contar a competência, que está cada dia menos presente nas repartições públicas e privadas.

Capitalismo caos, como diria Karl Marx.

E apesar de todo esse péssimo quadro da alienação trabalhista, palestrantes motivacionais pregam o amor à camisa, quando isso só representa o fortalecimento industrial e a submissão do proletariado. Ridícula essa situação enrustida da força que julgamos ter, quando na verdade estamos cada vez mais expostos a fazer o que eles querem apenas para não ficarmos sem dinheiro e sem ter do que viver.

Fico indignada ao constatar a manipulação que o dinheiro e o poder exerce.

Mas, e a globalização? A justiça social, a estrutura funcional onde se determina que funcionários motivados rendem mais?

Motivação não passa de uma demagogia falada em reuniões catastróficas, as tais perdas de tempo, onde se fala muito e se faz pouco, às vezes nada.

Penso que deveríamos todos virar hippies. Eles sim é que devem ser felizes, ou ao menos vivem de acordo com suas ideologias.

Deveríamos ser hippies ou comunistas, quem sabe. Espalhar cartazes pela cidade, pintar os rostos e assumir os narizes de palhaços que há tempos somos obrigados a engolir.  

O quê esperar de uma nação que coloca o Lula na presidência?

O quê esperar de uma legislação que não paga hora extra, mas desconta os atrasos?

O quê esperar de uma justiça que penaliza assassinos com no máximo 30 anos de prisão e os liberta em 3?

O quê esperar de um país que absolve Bida no caso de Dorothy Stang?

Jornalistas nunca deveriam pertencer a um lugar, emprego, pessoa ou estado. Jornalistas deveriam ser livres, se sentirem livres. Porque a prisão que sentimos é muito maior que os limites de um Cep ou uma carteira assinada. A prisão que me refiro é a de pensamento, é aquela que nos julga burros quando na verdade só estamos nos fazendo, sim, porque para sobreviver nesse mundo “globalizado” e injusto, só vestindo a carapuça e se fazendo de morto, como os cachorros. Mas claro, falo dos jornalistas natos, e não dos modistas. E essa “nata” se vê pela vocação e não pelo status. Por mais que a moda agora seja ser sensacionalista com os Nardoni, fazer piadas sobre o Ronaldinho e os travestis, ler o Segredo e fazer cara de conteúdo. Por mais que seja bonito participar das festas sorridentes e satisfeitos ainda que nos falte tudo, dizer ótimo quando te perguntam como está e se auto-entitular um otimista. Por mais que o importante agora seja esconder o que se pensa, o que se vive e o que se faz. A moda é ser isso, é não ser ninguém.

 

                                                                       "Vamos pedir piedade

                                                                       Senhor, piedade

                                                                       Dessa gente careta e covarde"

 



Escrito por Érica Marin às 23h57
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