
Escrever estrelas
Elas aparecem insistentemente todos os dias. E quando não estão lá é porque a noite será assim, sem graça, como certamente o dia deve ter sido sem sol.
Pequenas ou grandes, brilhantes ou apagadas, mas sempre persistentes.
É engraçado como de repente elas podem surgir ou se ofuscar. É reconfortante acreditar que estarão ali algum dia, porque toda noite fria uma hora chega ao fim. E é inspirador quando as encontramos perdidas em um espaço muito maior que a nossa casa e ao mesmo tempo tão pequeno que não conseguimos fugir delas. Aquele espaço próprio, quente e vivo, dentro do corpo de alguém, como pedacinhos de luz que o tornam fascinante.
Falo de estrelas, de escrever estrelas, de enxergá-las. Falo das palavras escolhidas e criadas, da magia que nos faz pequenos e gigantes em si mesmos e na sensibilidade que recolhemos sem ganhos ou gastos.
Aquilo que nos faz bem sem pretensões, como acariciar um gato de rua. Sete vidas, já sem uma, mas ainda restam seis.
“Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio. Que a morte de tudo que acredito não me tape os ouvidos e a boca, porque metade de mim é o grito, mas a outra metade é o silêncio".
(Oswaldo Montenegro)

A varanda
No começo ela era opcional. Se tivesse, bem, do contrário, bem também, pois não fazíamos questão. É claro que eu pensava no sol e nas possibilidades de enfeitar essa parte da casa, além de imaginar a nossa gata se espreguiçando entre a porta e aquele pedacinho de vista aérea particular, mas, ao mesmo tempo ela não seria tão necessária às nossas primárias pretensões. Por fim, ela existe. A varanda.
Dá pra ver a quadra de esportes e as crianças brincando, alguns prédios vizinhos e confirmar que a foto, quando tirada por dentro de um buraquinho da tela, fica bem legal. Dá pra comprar um vasinho de flor pequeno e uns cristais para trazer boas energias. Mas tudo sem exagero, pois combinamos na discrição das peças.
Esses dias, enquanto limpávamos a bagunça da reforma, pude notar um arco-íris. Corri para pegar a câmera e tropecei na Amélie, folgada, esparramada pela sala. Assim foi possível que nós três observássemos aquela bela imagem. O colorido ia aos poucos voltando aos nossos dias e certamente faria parte do futuro tão doce quanto meu insubstituível mate-com-leite. O calor do corpo dele ao meu lado me mostrava que podemos ver as estrelas ainda que estejamos em pleno claro do dia. E assim, pude enfim entender qual a importância que 60m² exerce na vida de uma pessoa.
(...) "É o projeto da casa; é o corpo na cama"...
Escrito por Érica Marin às 22h39
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|