
Diferença Epilepsia. A palavra por si só assusta, mas assim acontece porque não estamos acostumados a vê-la como uma doença como outra qualquer. Não contagiosa e estigmatizada por antigamente ser tratada com o famoso e taxado remédio Gardenal, essa disfunção cerebral hoje abrange cerca de três milhões de brasileiros, sendo apresentada a cada portador de uma forma específica, como convulsões ou simples e aparentes desmaios. Com os estudos e a descoberta de anticonvulsivos que apresentem menores reações, o tratamento é feito por um período mínimo de dois anos. Recentemente, pesquisas brasileiras apontam que a gordura Ômega3, encontrada em alguns tipos de peixe pode colaborar com o controle das crises. Mas infelizmente, por mais que estejamos em plena era moderna da medicina, seu maior impecilho ainda é o preconceito. É ridículo achar que um epilético não pode trabalhar ou ter uma vida normal, a não ser a proibição médica do abuso de bebidas alcoólicas e a recomendação de uma vida estabilizada, sem muito stress e moderada quanto aos horários noturnos, o que não os torna um grupo de anti-sociais, caretas ou coitadinhos, mas os trazem a realidade de zelar pelo descanso físico e mental, conservando as oito horas de sono diário (o que também não significa que não podem fugir às regras de vez em quando). Pessoas famosas como o pintor holandês Van Gogh e o inglês da banda Joy Division, Ian Curtis, portavam essa disfunção. Agora quem lança campanha de conscientização e não-discriminação é Emilie, a roqueira da banda Evanescence, ajudando a mostrar que ser epilético é ter uma outra visão da vida, onde os sentimentos e sentidos se confundem a tal ponto que o “off” entra como uma espécie de interruptor corporal automático, e não uma anomalia que mereça ser posta em xeque sobre a capacidade de seus portadores. Essa disfunção nada mais é do que a descarga elétrica anormal em um grupo de células nervosas. Portanto, cabe à sociedade se informar para não diferenciar as pessoas que possuem determinadas características. A informação é gratuita e disponível, mas nem sempre está ao alcance de nossos olhos porque nos fechamos em nossas necessidades rotineiras. Devemos transcender e nos tornar abertos aos milhares de mundos que vivemos, ainda que pareça ser um só. “Se as portas da percepção fossem desobstruídas, cada coisa apareceria tal como é: infinita”. (William Blake)

Devaneios Ela olhava pela janela. Os carros passavam lentamente no trânsito que conhecia bem. O ônibus aquele dia não estava tão cheio e ela pôde sentar-se. Ouvia o mp3 no volume máximo, mas a música suave não atrapalhava seus pensamentos. Estava longe, longe. A canção que começara era como sua trilha sonora. Não se achava mórbida, mas encarava com naturalidade o fim de todas as fases, já que se achava a rainha delas. Observou a mulher do carro ao lado. Mexia freneticamente na bolsa, parecendo procurar alguma coisa. Mas não. Percebeu então que ela se distraia ao revirar seus objetos enquanto aguardava a longa fila andar. Assim como ela, a mulher era estranha. Sorriu ao pensar nisso. O céu ia aos poucos escurecendo e as pessoas não paravam de entrar no ônibus. Uns conversavam, outros liam, ouviam música como ela. Outros simplesmente pensavam, ou pareciam pensar. Outros, ainda, dormiam. Ela não. Por mais que parecesse se distrair com o som que saia leve dos fones, ela devaneava. Tinha a incrível capacidade de conhecer um país particular, com cores e formatos abstratos. Queria tanto e com tal força que mal sabia como começar a realizar os mil planos que fazia. Era uma guerreira, mas hoje ela só queria a paz. Ela não era daquelas princesas de conto de fadas, mas também não era tão real como as mulheres modernas que sonham em gastar fortunas em shoppings. Era fascinada por arte e sabia de cor nomes e mais nomes de filósofos e suas invejáveis teorias. Uma menina, mas uma mulher. Tinha amadurecido o bastante, mas não percebeu a tempo. E se descobria assim, quase sem querer, a cada dia. Inevitavelmente, pensou nele. O sorriso sem jeito, o modo de como corava ao se envergonhar e do cantinho que sentava para comer churrasco na casa da mãe. Desceu do ônibus e caminhou atordoada pelo efeito das palavras em sua mente, como um texto mental. A calçada parecia feita de algodão e nunca reparou que seus passos eram tão rápidos. A lua imensa começava a despontar e em um suspiro teve a impressão de levitar. O corpo em câmera lenta se amparava no chão cinza. Ao voltar a si não conseguiu falar. Não sabia onde estava, mas já havia se acostumado e as mãos formigando lhe eram peculiares. Foi assim, vagarosa e quieta para casa. Estava de volta a si, na mais tenra vida personalizada que escolhera, e isso a tornava majestosa e forte. Já não queria mais pensar. No outro dia, ao despertar do relógio, tudo começava novamente. Sexta-feira. Acariciou a gata e abriu o portão de casa, e claro, dos seus inúmeros pensamentos.
Escrito por Érica Marin às 09h44
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