Domando leões


 


 " (...) Se ela pudesse entender, se pudesse se concentrar, se fosse capaz de romper os muros de luz, se conseguisse passear entre suas infinitas possibilidades. Mas ela tenta. E de maneira tão apaixonada que fracassa nos limites de si mesma. Se ela vencesse essa parede, saberíamos se está ou não cabendo em sua atual realidade. Saberíamos onde ela, enfim, quer, ou necessita, ou sonha, estar."              

                                                                            ("O Efeito Urano", Fernanda Young)

  


 

 

 

Real ou irreal?

 

O quadro era assim, bonito e feio ao mesmo tempo. Estava na parede todo empoeirado, já sem se imaginar na casa de alguém que o admirasse. Ele, como toda obra de arte, vive da beleza, quando não a visível, aquela de expressividade humana onde os sentimentos ultrapassam as barreiras das cores e formas. Para uns, preto e branco, para outros, colorido. E havia de achar algum meio termo para que as coisas começassem a fluir.

Não adiantava persuadir para que vissem do mesmo jeito. Não se muda a visão quando se refugia nela. E mal sabiam que o quadro era de fato, meio a meio.

O toque suave do preto e branco contrastava com a alegria do colorido, mas se completavam. O clássico e o moderno, os números e as palavras, o contraste e a empatia.

Quando entrei na loja tive certeza de que era ele, todo complexo em si mesmo, que ficaria lindo na nossa nova sala. Ele, a parede branca e as flores sobre a mesa.

Amélie – a gata – ronronava por entre os cômodos e as caixas lotadas de roupas, objetos e fotos, ainda a serem colocadas uma a uma em ordem.

Quanto trabalho, pensei. Mas era uma felicidade tamanha que isso era bobagem.

Aguardaríamos até a semana que vem, afinal, as camisas separadas por cores e tons podiam esperar um pouco.

O que não podia esperar era a vontade de ver todos os quadros nas paredes e meus porta-retratos - pedacinhos de lembranças boas - espalhados por toda casa, ou, por algum móvel a ser ainda escolhido para tal tarefa.

Tinta fresca. A porta da varanda se abria de forma dificultosa e a coitada da gatinha cheirava cada espaço para tentar reconhecer o que a partir daquele momento seria sua casa. Um dos quartos ainda estava completamente vazio, conforme eu havia pedido. Coloquei um quartzo rosa no cantinho e fechei a porta. Ele ficaria assim por algum tempo, anos ou meses, quem sabe.

Por entre as caixas achei a primeira foto, a conhecida número 51 do álbum. Como havíamos mudado! Ao lado dela foi que Amélie finalmente se deitou. Um sono profundo e gostoso, digno de uma persa branca e dengosa que come atum e danoninho, que espera ele chegar atrás da porta e que me acorda com as patinhas leves e macias.

Da varanda dava pra ver o pôr-do-sol e as violetas certamente iriam florir nos próximos dias. Estava tudo limpo e a cama fazia um irresistível convite, mas a ansiedade em deixar tudo organizado não permitia o luxo.

Comemos pizza de chocolate, tomamos mate-com-leite e assistimos clips. Inclusive um do Guns, bem antigo, que jamais esqueci.

E ele, o meu tão querido quadro, permanecia ali, mudo e atento a todo movimento. Porque ele sabia o quanto eu tinha desejado esse simples momento.

Calado e amigo. O exemplo que ensinou a não olhá-lo com restrições, mas a entendê-lo como passível de alterações desde que repleto de amor.

 

 


  

 

Aos focas* com carinho,

 

Para exercer a profissão que se sonhou e dedicou durante quatro anos é necessário muito mais que um simples diploma. Intuição, dedicação, paixão, vocação.

É estranho como somos diferentes da maioria dos profissionais. Reparando a personalidade de cada um, sempre encontramos uma afinidade coletiva.

Jornalistas normalmente vivem em um mundo paralelo. Vemos os fatos e as pessoas em detalhes, mas muitas vezes não conseguimos enxergar a si próprios. Culminamos nas perguntas porque possuímos intermináveis indagações internas nunca esclarecidas. Queremos algo do mundo que nunca será recebido, sim, somos incorrigíveis utópicos, sonhadores, curiosos e rebeldes. Somos todos loucos, todos boêmios, incompreendidos, mas alegres. Somos uma legião urbana que não dorme, não sossega, não se entende. E que busca, que ri de coisas tolas, que acha graça em piadas internas e se emociona com palavras bonitas. Que acredita, que nega acreditar, que fala demais ou escreve demais, que erra sempre, mas acerta quando menos espera.

Mais que escritores do cotidiano, somos aqueles que sentem o cheiro do interessante, que correm atrás do real significado daquilo/ daquele e que lamentavelmente muitas vezes não pensam em si mesmos e nas conseqüências dos nossos atos. Inconseqüentes? Não. Corajosos e impulsivos.

Somos toda uma sociedade hipócrita, não-politizada, pobre, preconceituosa. Somos um país de belezas naturais, simpatia, alegria, festa. Somos os escândalos, mas queremos a paz do anonimato. Dançamos no carnaval, mas choramos na solidão dos nossos quartos.

Esquisitos, despachados, repórteres, fotógrafos, editores, radialistas, escritores, assessores, pesquisadores. Somos o quarto poder e por isso somos poderosos, mas nos sentimos pequenos porque não conseguimos mudar o imutável.

Somos libertos e odiamos regras ditadas. Somos mensageiros da expressão humana e ainda assim não somos capazes de aceitar a humanidade. Independentes, mas carentes. Fortes, mas sensíveis.

Enxergamos quadros preto e branco como se fossem coloridos e nos dividimos entre realidade e devaneio. Mas ao mesmo tempo em que somos tanto, somos nada. Porque somos barrados, incompreendidos, marginalizados, censurados. Às vezes até presos e mortos, mas firmes e presentes.

E ainda que tentem nos manipular, somos teimosos e atentos. Desmotivados, mas apaixonados.

E seguimos a palavra periodísta ao pé da letra, sempre, porque isso é tudo que sabemos de nós. O mundo pode desabar, as tragédias podem explodir em culturas violentas e terroristas, o amor pode nunca dar certo, as pessoas podem nunca entender nossa maneira, mas nada disso vai mudar nossa condição primária e apaixonante de ser: jornalistas.

 

 * Foca: jornalista recém-formado.

 

"Adoro escândalos sobre outras pessoas, mas escândalos que me envolvam não me interessam. Eles carecem do encanto da novidade".

                                                                                                                (Oscar Wilde)



Escrito por Érica Marin às 12h01
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