Domando leões


Blog novo: http://verdadeimaginaria.blogspot.com



Escrito por Érica Marin às 15h11
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Mais de mim

 

Sabia que tinha de sair dali. Levantar daquele sofá, jogar a garrafa de uísque vazia fora, colocar um tayer e ajeitar o cabelo. Sabia que a essa altura esperavam mais de mim. Ou, quem sabe, era eu mesma quem esperava isso.

Enrolada no roupão, descalça no carpete, fingia que as horas não passavam. Fingia que o mundo havia paralisado, mas não. No máximo, ele estava girando em torno da minha cabeça embriagada e meus dedos dormentes.

De fato eu era mesmo muito difícil de dominar. Nem eu conseguia tal proeza e por vezes desejei domar meus leões. Uma tentativa frustrada de autocontrole, pois sempre fiz o que queria. Menos uma vez.

Uma única vez fui presa. Colocaram-me na cela mais segura que um animal feroz poderia ficar – os braços dele. E deixei acariciar e amansar, quieta e assustada. Acreditei que ele fosse tudo o que eu sempre sonhei. Foi aí então que descobri que esse alguém não existia. O que sempre existiu foi o meu amor, só isso. E existiu rancor também – esse mesmo que me trouxe até aqui.

Diante dos flash’s eu nem parecia ter aceitado minha condição. Agora eu era uma das mulheres mais poderosas do mundo. Isso mesmo! Mulher e poder. Ou, mulher, poder e eu.

Tinha nas mãos o direito de avassalar uma parte da história. Decidir onde e quando começaria, onde e quando terminaria. Tinha toda cultura dos milhares de livros que li, das milhares de músicas que ouvi. Tinha a absorção dos filmes, documentários, peças de teatro. Tinha a larga experiência das infindáveis conversas e inúmeras amizades de mesas de bar. Tinha toda família que criei, todos os amigos que conquistei, todos os amores que amei. Só não tinha a mim.

E se agora dissesse que foi por falta de procurar, estaria mentindo. Ansiei por me encontrar em tantos lugares que perdi as contas. Ansiei por mim no alto dos prédios, nas pedras da praia. Mas só quando percebi minha ausência, comecei a me encontrar.

Decidi então, contar meus segredos às orquídeas. Dediquei-as todo furor de minhas entranhas à espera apenas do desabafo. Se quisesse conselhos, procuraria um psicólogo.

Estranho mesmo era o fato de que ainda ardendo por dentro pelo desamor dele, pensá-lo me fazia rir. Ele era – absurdamente – minha piada mais engraçada.

E agora eu estava ali, no melhor dia da minha vida.

Estava de volta à cor, e isso sim importava. Ele havia se transformado em cinza para se camuflar no cimento da cidade e escapar dos predadores. Durante um tempo também eu me desbotei. Perdi a alegria das cores para conseguir o status do cinza, mas não renegamos quem realmente somos, e me rendi ao que sempre fui: uma borboleta colorida que apanha e morre, mas não se vende, não se mistura, não se esquece. Ele sim se esqueceu e perdeu a cor. Coitado! Se soubesse quão bonito era seu sorriso colorido...

Mas, voltemos ao foco – esse era MEU momento. A partida.

Acendi um cigarro de cereja e fiquei durante horas deslumbrada pela chama silenciosa de meu mais novo seguidor, segurado por minhas mãos de unhas vermelhas.

Viajar para Paris nunca me pareceu tão animador.

Acho que as circunstâncias ajudavam a inflamar a ansiedade. Minha primeira viagem internacional e o melhor: agora eu era dona de mim.

Desembarquei sob olhares curiosos e minha beleza se expandia pelos vidros por onde passava. Uma espécie de anjo sem asa, demônio carnal que transpirava ações doces e pecados sutis.

Fui demais. Tudo, absolutamente.

Exagerei na dose e a overdose foi inevitável. Mas agora sei a medida exata de me doar, e com o veneno e o perfume naquela noite seria capaz de tudo que quisesse. Desde um simples estalar de dedos até a ordem mais calculada.

Desta vez escolheria sem titubear meu mais novo caminho, sem reclamações ou perdas, pois nada se perde quando nada se quer. Afinal, o que tenho além de carne e osso é uma alma que nunca envelhece. Tenho minhas glórias e meus sabores.

A revolta está na juventude e as rugas não me pertencerão ainda. Guardo-as para quando forem necessárias, porque por enquanto só quero mais de mim.

 

“E eu não me queixo”...



Escrito por Érica Marin às 14h00
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A humanidade sou eu

E faço dela minhas palavras de hoje. Amanhã as criarei sozinha, subvertendo meus sentidos e irradiando minha alma por entre meus dedos calejados e delicados, que não me abstém de nenhuma dor porque sabem as necessidades da verdade, ainda que hoje se guardem apenas em lembranças doídas. Tiram-me o peso do corpo e aliviam o calor ardoroso das paixões silenciosas.   

 

“Não realizar um desejo pode ser tão divertido quanto realizar. Basta esmiuçar o extrato desse sentimento e tirar dele o que ele tem de melhor para nos oferecer: a compreensão de nós mesmos. Desejos são raioX da psique; examinando-os com esse olhar, vemos não apenas quem somos, mas por que somos e por que nunca deixaremos de ser. Já que estamos nisso há séculos, manipulados por carências ancestrais e insolúveis. Milhares de gerações de você, tipinhos que julgam os outros pelos buracos do corpo. E acreditam nas mesmas verdades inquestionáveis de sempre. Quem disse que toda fruta faz bem à saúde? Quem disse que todo assassino é malvado? Quem disse que todas as mães são boas? São vocês, os detentores do saber medíocre, da lógica controladora do caos, que querem leis e mais leis, o tempo todo. Porque precisam de ameaças para conter as naturezas sórdidas que habitam seus corpos. Através do medo que habita suas mentes. Pervertidos escrotos. Em mim, garanto que não há pecado, pois não acredito neles. Pode haver desespero e ódio, porque, na falta de amor, ocuparam-me os piores sentimentos. Subprodutos do processo de submissão, necessário às circunstâncias. Hoje, ainda tenho desejos, sim; gostaria de conseguir me divertir sem reticências. Queria ser uma pessoa alegre, como algumas que vejo. Adoraria viver a irresponsabilidade de ser casual, nem que fosse apenas por uma tarde. Mas não é assim, e não reclamo. Seguro a mim mesma pelo cangote, como uma cadela carregando a sua cria. O que carrego é ainda mais delicado – chama-se sanidade. Preciso defendê-la de tudo e de todos, para mantê-la em mim. Posso vir a comer a mim mesma, só para que ela não escape em delírios. Temo enlouquecer, já tendo certeza disso. A humanidade sou eu”.

 

(“Tudo que você não soube”, de Fernanda Young)

 



Escrito por Érica Marin às 15h31
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Eu sou

 

O agora e o infinito

 

As possibilidades e as invenções

As noites e as tempestades

 

Sou o caos e a beleza

A arte e a falta de adeus

Sou a alegria mórbida

A suavidade da agressão

 

Posso ser uma, ser duas ou mais

Posso ser quem eu quiser

Pois me renovo, me renasço

 

O saber e a ignorância

A mente e a insanidade

A deusa e a suburbana

 

Sou uma palavra e moro em um texto

Mas sou irreal, impossível

Não tente me ler

Não tente me esconder

Eu mesma o faço

 

Porque sou a liberdade das asas

A escuridão dos seus olhos

Que transcende a imensidão

E que marca sem cura...

 



Escrito por Érica Marin às 15h13
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Onde está o amor?

 

Nada mudou

Mas o tempo não parou

Estamos sozinhos

Buscando sobreviver aos golpes

Sorrindo e chorando

Ou simplesmente respirando

 

Estamos aqui

Por enquanto

Daqui um tempo já não sei

E o tempo passa depressa

Quando olhar pra trás

Já foi

Será?

 

A porta já não abre mais

Mas as flores renasceram

O rádio mudou de estação

Mas um dia a música irá tocar

Porque nada se perde

Ou se entope

 

Raios já não assustam mais

E se pensar melhor

Onde foi parar o amor?

Se escondeu por entre os livros?

Ou se perdeu por entre as festas?

 

O amor não morreu

Envelheceu.

 

 



Escrito por Érica Marin às 21h06
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Vencer. Para alguns, vencer na vida é fazer uma boa faculdade, ter um bom emprego, ganhar um bom salário, comprar uma boa casa e ter um bom carro na garagem. Para outros, vencer é casar com um homem bonito, ter filhos bonitos e cuidar da casa bonita. E embora em alguma parte da história, esses dois pontos de vista se cruzem, em um todo, são totalmente dispersos.

Ninguém é, nem será feliz totalmente. E isso não é nenhum pensamento pessimista, muito pelo contrário. Ser feliz é mais difícil do que parece ser, e sabe por quê?

Porque nunca estamos satisfeitos.

Se temos o bom emprego, queremos o homem bonito. Se temos o homem bonito, queremos o bom emprego e assim caminha a humanidade...

Uns se estimulam e não perdem o pique até conseguirem o que querem. Outros, desanimam na metade do caminho e guardam seus sonhos em potes tão escondidos que nem sabem mais onde colocaram. E assim, tudo envelhece... a pele, a vontade, a determinação. Ficamos velhos antes do tempo, conformados antes do tempo, burros antes do tempo. E a juventude dos nossos objetivos se perdem com um não aqui e outro ali.

Aí então é que percebemos que vencer na vida nem sempre é aquilo que pensamos ser desde criancinhas. O fato de ter bens em seu nome ou pessoas que te amam por perto nem sempre é o bastante para a felicidade pessoal. É preciso mais, muito mais.

E esse mais, nem sempre é tão distante quanto parece.

Ser completo é auxiliar na reprodução dos acontecimentos de um mundo maluco e cruel, mas que ainda tem uma chance de se tornar maravilhoso. E então, se acordarmos a tempo, poderemos deixá-lo do jeito que queremos... ao menos no mundo pequeno e ao mesmo tempo imenso, existente dentro de nós mesmos.

Ou seja, correr atrás dos sonhos não é TER aquilo que parece ser bom ou bonito. E sim, SER o que sonhamos um dia. Agora pense: você realmente é o que sempre quis?

Teve atitudes que se orgulha? Foi o melhor que pôde?

Para responder, esqueça o orgulho, admita seus erros e seja humano. Não queira ser perfeito, pois ninguém é. A humildade é que faz a diferença.

Se não fez o que queria ter feito, não se esqueça que amanhã é outro dia e "o filme é o mesmo, só o elenco que tem que mudar".

E se ainda não for o que sempre quis, SEJA. De forma desigual e única, majestosamente infinita em suas eternas possibilidades, porque quem nos possui não nos tem verdadeiramente. A liberdade é que nos torna únicos em nós e nos outros. Porque vencer é ser aquilo que você sempre quis ser, com toda plenitude, responsabilidade e prazer que isso te traz.

                                                  

"O que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesmo."         

                                                                                                    (Clarice Lispector )

 



Escrito por Érica Marin às 14h27
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       “Quando a vida lhe oferece um sonho muito além de todas as suas expectativas, é irracional se lamentar quando isso chega ao fim”.

 Prólogo

 

Corri até a porta para fugir da chuva. A água escorria pelo meu corpo espalhando o sangue e me apavorando ainda mais. Estava ofegante e meus braços e pernas começavam a adormecer. Em um esforço sobre-humano, apanhei o telefone. Estava tentando sobreviver.

Queria saber onde a bala havia perfurado, mas ainda que reunisse toda minha coragem, não conseguiria verificar o furo em meu peito. Estranhei a ausência da dor. Na verdade, maior que o ardor da ferida era a tristeza em saber quem a havia provocado.

Lembro de ter ouvido a voz do meu pai pedindo calma antes do telefone cair ao chão. Dali pra frente apenas o barulho da sirene surtiu efeito em meu cérebro.

Treze de outubro. Foi quando tudo começou, e agora, talvez, quando tudo terminaria...

 



Escrito por Érica Marin às 14h54
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Quem sobrevive a mim

 

Quando não quero ser eu mesma, saio de mim.

Quando não quero mais investir, me despeço com um tchau suave, meio sem jeito e sem fim.

Porque não sei saber o futuro, nem esquecer o passado.

Quando quero viver o presente me reinvento. Sonho acordada.

Quando não quero mais respirar, me mato. Mato minhas idéias fracassadas e minhas teorias conspiratórias. Assim renasço mais forte.

Quando não quero, não tem jeito.  Mas quando quero...

O difícil é sempre saber o momento. E ele se esconde por trás de relógios imaginários.

Medito no caos, no absurdo. Enxergo nas brumas, sinto o cheiro forte de mirra e vôo.

Não é difícil ser assim, é prazeroso, mas temível. A liberdade assusta, o medo às vezes atrapalha, mas quem sobrevive a mim, não me deixa. E por isso a solidão acaba na verdade vazia, na absoluta e intensa capacidade de querer o mesmo que eu.  

 



Escrito por Érica Marin às 16h04
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Não sabia se queria, mas também não tinha certeza que não.

Não queria se afastar, mas não estava certa de que seria melhor tentar.

Na verdade ela simplesmente NÃO sabia. Não sabia nada, realmente.

Nada de si, nada dos outros, nada do que aconteceu e muito menos do que aconteceria dali pra frente.

E exatamente por não saber, se calava. Mas ainda assim, sentia vontade de falar. Sentava-se, levantava em seguida. Abria a geladeira, ligava a tv. Olhava pela janela, tentava ler. Nada.

Pensou em telefonar. Pensou em se arrumar. Pensou em sair.

Foi dormir.

 



Escrito por Érica Marin às 14h43
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Exato

 

Desta vez era diferente e segurava forte as mãos dele para que não se soltassem.

Pude sentir o perfume doce por entre meus dedos na volta pra casa.

E enquanto flutuavam em minha cabeça milhares de pensamentos, respirei e aspirei na tentativa de buscar o equilíbrio que havia perdido durante tanto tempo. Parece que o achei finalmente, quando sem mais nem menos, parei de procurar.

Parece irônico, e talvez o seja, a despretensão chegar ao ponto máximo e determinante, mas assim o é, talvez por ser assim, tão simples em mim, porque trago comigo apenas o que foi bom.

 

“O tom que eu canto as minhas músicas pra sua voz parece exato”

 



Escrito por Érica Marin às 20h53
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Os caçadores de estrelas

 

Entre as árvores e a noite, despencavam sobre nós dois alguns poucos exemplares de estrelas. A lua se escondera por entre as nuvens, num céu encoberto, mas não menos belo.

Ele me abraçava num calor intenso e mágico e a grama como nosso tapete fazia surgir centenas de duendes alegres.

Sentia vontade de rir de mim mesma, de sentir, de tocar. Sentia vontade de ser o que há muito tempo não era mais. Sentia um furor tamanho e não identificável pelas palavras. E se me esforçasse bem, poderia até ouvir a voz dele cantando Pearl Jam no meu ouvido.

Porém, agora, não seria necessária a recordação. Ele estava ali, ao soar de qualquer música e qualquer beijo demorado. Porque ainda pode haver pérolas e ainda pode haver proteção, basta encontrá-la nos braços certos.

 



Escrito por Érica Marin às 11h25
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Marcas que não se apagam

 

As malas no carro representavam o fim de um martírio. Meses sendo amante e seria o fim se ele não tomasse uma atitude logo. Não que ela gostasse da idéia de pressioná-lo, mas a volta pra casa solitária nas sextas-feiras fizeram com que chegasse ao seu limite.

O amor era imenso, mas ao mesmo tempo pequeno demais para que pudesse dividir e a idéia de que suas mãos tocassem outro corpo que não o seu, a conturbavam. Era a outra, mas ao mesmo tempo era única.

Agora aquelas malas e o travesseiro no banco de trás marcavam o início da história possível e o fim das lágrimas de saudade. Agora eles poderiam ligar quando quisessem, andar de mãos dadas. Agora poderiam sentir o gosto da aprovação e esquecer a culpa que sentiam a cada encontro.

No hotel, pela primeira vez ela o viu dormindo. Sentiu a felicidade mais completa que existia. Observou com cuidado cada detalhe de seu rosto. Desejou que aquele momento perdurasse por toda vida. Na verdade, “trocaria a eternidade por aquela noite”.

Cobriu o ombro descoberto, se levantou e escolheu a roupa que ele vestiria no dia seguinte: camisa azul, calça preta. Abriu a bolsa e pegou seu batom mais bonito. Foi embora depois de escrever com ele no espelho: Amo você pra sempre...

Ele deve ter limpado a frase após lavar o rosto, ou então a camareira o fez depois de admirar a declaração tão simples e sincera. Talvez ele nem se lembre mais disso, mas a marca no espelho continua ali, intacta à memória. E toda vez que o vapor do banheiro se espalhar pelo quarto, aquela mensagem ressurgirá, pois o espelho, assim como a pele, pode esconder uma cicatriz profunda, mas nem mesmo o tempo é capaz de apagar uma história que vivemos e nos entregamos. Há coisas que não sai de nós mesmos porque se soma como pedaços de carne, pedaços de sonhos. E não adianta fugir ou tentar esquecer. O medo um dia vai embora e o que fica é isso, a marca.

 



Escrito por Érica Marin às 22h55
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A verdadeira terapia

 

Alice era mulher como outra qualquer. Independente, bonita, atraente. Gostava de sair à noite, de dançar, de beber, de fumar. Gostava de dirigir pela cidade, de trabalhar e receber elogios por sua beleza e claro, sua inteligência (que considerava seu melhor atrativo). Mas no fundo, bem no fundo, onde nem ela mesma era capaz de admitir, sonhava mesmo era em se casar, ter uma casa com violetas floridas e filhos educados e amorosos. Alice sonhava, mas em segredo.

Segredo porque já estava cansada de suas frustrações com relacionamentos anteriores, cansada de suas expectativas ideológicas e irreais de encontrar um homem que a entendesse e a completasse. Na verdade, nos últimos tempos ela se convencera de que isso não existia e aproveitava a vida à sua maneira. Ainda era tão nova pra algumas coisas, mas sempre que pensava no futuro, se sentia sem tempo para realizar tanta coisa que planejava. Era como se uma linha do tempo se formasse em sua imaginação e isso a deixava desesperada.

Mas, desesperada mesmo ela ficava quando se via cometendo erros de carência, como inevitavelmente aconteciam vez ou outra. E era sempre a mesma história: no auge de sua solidão, se arrumava, saia, bebia e ficava com alguém. O problema vinha no dia seguinte, ao ter que dizer ao tal carinha que ela já não queria mais. Não gostava de brincar com os sentimentos alheios, mas ainda não estava pronta para se entregar. Estava confusa, fechada pra balanço talvez. Mas ainda assim, Alice odiava se sentir sozinha e então, o mesmo erro prosseguia.

Como não gostava de encarar os fatos, por mais obvios que eles fossem, não procurava ajuda de terapeutas. Imagina! Uma mulher tão auto-suficiente como ela! – pensava.

Ia ao shopping fazer compras. Essa era uma forma tão famosa de esquecer a tristeza!

Nas primeiras aquisições até funcionou, mas depois, ainda que olhasse com muita empolgação para o par de sapatos de couro envernizado novinho que acabara de pagar, não conseguia esquecer seus problemas, ou a falta deles, como o conserto do botão da camisa do marido, a lição de casa do filho, a falta de tempo para o supermercado. Enfim, tudo que via acontecer com as amigas de infância, que já estavam todas casadas e resolvidíssimas enquanto ela ainda se achava uma adolescente.

Isso podia até ser uma carência passageira, afinal, não queria também que sua vida se resumisse ao lar e suas rotinas, mas certamente estava começando a enxergar a vida de forma mais madura e centrada.

Foi aí então que pensou em escrever.

Comprou alguns cadernos para rascunhar, e quando viu já estava na quinta página. Decidiu escrever no computador para agilizar e consequentemente, transformou seus arquivos de word em históricos de uma página gratuita da internet. Assim surgiu sua terapia concreta: textos fictícios ou não que exprimiam seus pensamentos mais ocultos na rede atual mais explícita que existe: os blog’s.

 

 

* E ah! Alice resolveu dar tempo ao tempo! Nada melhor que o acaso para lhe trazer ótimas novidades e companhias. Continua no país das maravilhas, mas desta vez, com a exata noção das imperfeições mundanas, alheias e próprias.

 



Escrito por Érica Marin às 19h45
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Sinto minha boca adormecida pelo álcool que suga aos poucos a sanidade da minha alma; e contrastante a isso um fervor e uma efervescência que dilata meus poros me fazendo transpirar suavemente os cinco sentidos... minha pele entra em ebulição quando o vejo e isso me mata aos poucos, levando com ele a paz que nunca tive.

Um vício, um alimento. Perigoso, mas necessário. Injusto talvez, mas intenso e quente.

Ele me entende como a um manual e eu observo calada, inerte e muda aos meus pensamentos flutuantes.  

("Mais vale uma Alice voando que mil Alices com os pés no chão")

                                                                                                                                                                



Escrito por Érica Marin às 17h08
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Fadiga  

 

Cansei de ser a santa, mas cansei mesmo é de ser o demônio.

Cansei de culpar os outros, mas cansei mais ainda de culpar a mim mesma.

Na verdade, cansei de ser a má da história. A madrasta com ares de princesa.

Não sou, nem nunca fui.

Sou meus erros e acertos, como todo mundo é, ou deveria ser, pois tem gente que se esquece disso.

Já menti por medo, já menti por amor, já menti por vergonha. Já omiti por tudo isso também, mas nunca soube amar de mentirinha, sempre e invariavelmente.

Quando estou, estou mesmo, não de brincadeira. Quando sinto me exponho, me entrego, falo, choro, grito, bato, apanho. 

Não durmo com a dúvida de não ter feito o que podia, pois normalmente luto até o fim e até quebrarem todas as minhas armas. Desistir da batalha por falta de forças? Nunca. Odeio gente covarde e fraca.

Só desisto quando não quero mais ganhar; quando o prêmio já não tem mais o brilho de antes.

Na verdade para isso acontecer é mais rápido que o bater das asas de uma borboleta. Sou instável e me apaixono todos os dias. Gosto da idealização das grandes paixões, do sufoco. Se sinto estabilidade, fujo – apesar de querer tê-la – não consigo viver assim. Quero arder, quero prazer, quero ser.

Quem foi que disse que preciso de calma? Prefiro a emoção, o suspiro e o tremor, o nervoso.

Sou o calor, e odeio o frio.

Sou a noite misteriosa, e odeio o dia comum.

Sou o poder, e odeio a mesmice.

Porque sou o negro e não me interesso pelo claro.

 



Escrito por Érica Marin às 00h48
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A reinvenção do mundo

 

Reinventar idéias;

Reinventar planos;

Reinventar a mim mesma;

Sempre, e com tal zelo que assusta. A cada fase um novo sonho, uma nova utopia.

Tudo novo. Será?

Será que esquecemos quem fomos? Que tudo o que vivemos se apaga assim tão facilmente?

Não. Acredito que tudo se renova. Tudo se REINVENTA.

E eu inventei você. Mas agora, cansada dos seus defeitos e erros, reinventei.

Você agora é outro. Outro corpo, outro rosto, outra pessoa.

A reinvenção das palavras de amor e assim, a felicidade que consigo, com muito esforço, desenhar novamente em minhas folhas em branco.

 

“O nosso amor a gente inventa

pra se distrair

E quando acaba a gente pensa

Que ele nunca existiu”

 

 

 



Escrito por Érica Marin às 16h05
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Dispenso a previsão

 

Com o tempo percebemos que não adianta fugir de si mesma.

Não podemos controlar o destino nem tampouco prever o que sentiremos.

Não adianta dizer que não amaremos tão cedo, devido a alguma frustração. Quem sabe é o coração, quem sabe é a pele, a mente, o corpo, a alma.

Não adianta não querer quando olhamos e o que temos é o que sentimos. O toque que contagia, o sorriso que não cala, a vida que se colori toda, a cada passo, a cada respiração.

O amor é assim, imprevisível. E ele não quer se esconder, apenas te fere sem querer e depois tenta recuperar toda felicidade que um dia te deu, só que em outras mãos.

Um círculo, um vício ardoroso e sutil, majestoso e sincero, gostoso e sufocante.

 



Escrito por Érica Marin às 16h38
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E quando olho no espelho já não sei se o que vejo são meus olhos ou apenas pedaços que ficaram para trás, deixados pelo tempo que passou sem que eu mesma percebesse.



Escrito por Érica Marin às 18h30
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Palavras  não são escritas; elas nascem. Brotam de dentro da gente como filhos que vêm ao mundo para nos salvar. Nos salvar de nós mesmos, nossos pensamentos e do silêncio que acolhe a solidão.

As palavras nos conhecem mais do que nós a elas. São as desconhecidas mais amigas que poderíamos ter, e estarão sempre ao lado, basta deixá-las sair.

Para que se façam em linhas é necessário sentí-las. São sensíveis e odeiam ser usadas.

Frágeis e fortes, duras ou suaves, não morrem com o tempo – como dizem. São eternas, são marcantes (como fogo na carne viva e pulsante).

Elas escolhem uma a uma as pessoas com que convivem. Selecionados calados e atentos que compreendem a importância da dor, do medo e do amor.

Poder manter uma relação tão íntima com elas garante um universo cheio de personalidade, onde tudo se torna secundário. Por isso diz-se orgulhoso quem delas sobrevive.

O amor às palavras é único, incondicional. Elas não traem, não julgam nem abandonam e se tornam partes do nosso próprio corpo, não envelhecendo nem apodrecendo com ele.

E até nos tempos de introspecção, onde o vazio toma conta de tudo, lá estão elas, acolhedoras e quentes, prontas para mais uma ebulição na fervura de uma nova paixão que as façam explodir para fora, encantando e reiniciando, sem nunca jamais parar.

 



Escrito por Érica Marin às 06h53
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O gosto que ficou

 

-         Vai para o inferno! – disse ela, saindo do carro no farol vermelho, atravessando a rua pisando fundo.

Ele arrancou com o carro, cantando os pneus.

 

As lágrimas escorriam pela face furiosa e maquiada. O coração parecia pular pela boca, as pernas tremiam. Ele era um homem horrível, ela o odiava naquele momento. Mas também era o homem mais lindo que já vira, o amor da sua vida. O contraste entre os sentimentos a deixava tão confusa que o oxigênio mal conseguia chegar ao seu cérebro. Por sorte não desmaiou pelas calçadas que apareciam em sua frente instantaneamente.

Mais uma vez se sentia fraca, imatura, culpada.

Sempre as mesmas brigas, as inúmeras discussões, as críticas, a impotência diante das atitudes tão previsíveis dele. O caminho de volta pra casa já não era mais doce como antes e isso a entristecia.

Decidiu ligar. Queria consertar os erros, terminar a história de forma que não se arrependesse ao se deitar na cama. Após muitas tentativas ele atendeu:

-         O que você quer?

-         Onde você está?

-         No inferno! Não foi pra lá que você me mandou ir?

 

“Seria engraçado se não fosse trágico”, pensou.

 

-         Volta!

 

E assim se fez. Ora choro, ora sorriso. Ora ódio, ora amor.

Assim se fez o céu, mas também assim se construiu o inferno. O fictício, o real.

E assim nos perdemos.

O adeus jamais existiu, assim como um sim ou um não. As paredes é que não saíram do lugar.

De tudo, somente as fotos. 

E o gosto que ficou, somente eu sei. Ou quem sabe, somente nós dois sabemos.

 



Escrito por Érica Marin às 06h20
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Anjos e demônios

 

Uma música que me faça parar de pensar.

O raciocínio lógico e extraordinário que entope as veias do meu cérebro não é capaz de paralisar a passagem mórbida de pensamentos fora de moda. A luta entre a inteligência e a burrice começa aí, em um terreno interno, mas tão desconhecido.

Somos anjos e demônios de nós mesmos, de nossos caminhos confusos e nossos objetivos sem foco.

A ponte entre a verdade e a mentira. Mas será que ela realmente existe?

Onde começa o que realmente importa e o que toma ares reais com a medida em que o tempo vai passando?       

A desistência da idéia e do plano. O reforço da razão e da consciência. O que deixou passar da época e que ficou tarde demais para recomeçar.

Velhos e caducos os sonhos não são capazes de se concretizar, eles carecem da jovialidade e impulsividade do desejo sagaz.

Somos ridículos e insistentes, sobrevivendo ao tempo inadequado da saúde mental e atingindo o alto grau da felicidade e da tristeza em pequenos e desnorteados segundos de diferença.

Pedaços de carne, sentidos de pele e cheiro, corpo e alma, sonhos e realidade.

Surtos filosóficos nessas mesas tão conhecidas. Diria que mais conhecidas até que mim mesma. Testemunhos vivos de gente que se mata a cada dia e que nasce assim, despretensiosamente, embelezando até mesmo os sentimentos mais feios que um ser humano possa ter.

Pois é, a beleza rara das abstrações cotidianas.

Obras de arte vivas que respiram, nascem, crescem, se reproduzem e morrem. Ou não.

E a arte, essa mocinha e vilã de nossas utopias de perfeição humana, só mostra o quão visível pode ser nosso corpo, divididos entre prazer e medo, angústia e alegria.

 



Escrito por Érica Marin às 08h04
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Dose

 

Tudo depende dela.

A dose é que comanda o bem e o mal. É ela que determina o tamanho exato do esforço.

E o prazo de validade?

E a dose?

Demais ou pouca?

Na medida certa ou em demasia? Tudo em exagero sufoca.

E o álcool não suspende a dor, apenas entorpece a saudade.

Até onde você agüentaria?

 



Escrito por Érica Marin às 07h40
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É preciso voar

 

Gosto de borboletas. Gosto de vê-las voando. E gosto ainda mais quando me sinto uma delas.

Mas para que chegasse até aqui, foi preciso queimar as asas nas lâmpadas que me fascinaram, foi preciso cair, foi preciso me curar.

É claro que me pergunto o porquê de tudo isso, mas é claro também que não possuo as respostas para minhas muitas dúvidas. E essas respostas podem vir com o tempo, ou quem sabe, nunca chegar. Só quem sabe a que se deve o acaso é quem comanda a vida.

O bater das asas volta mais cedo ou mais tarde visando alcançar o céu.

Livre.  

O quebrar dos vidros, o refazer dos sonhos, a alegria de contagiar aos outros e a si mesma com aquele sabor de se doar e de receber de volta. Reciprocidade, amizade, carinho.

É preciso voar. É preciso compreender. É preciso perdoar. É preciso amar. É preciso viver.

 

 


 

Despedida

 

 - Vai ser melhor pra mim!

 - Eu sei! – disse ele, com lágrimas nos olhos.

Queria chorar e a vontade era quase incontrolável, mas resistiu. Queria beijá-la também, como por vezes fez em impulsos sutis e espontâneos, mas se conteve, como, aliás, fazia com exímia eficácia nos últimos tempos.

Ela estava indo embora. Dessa vez para sempre. Tão para sempre como aquelas inúmeras cartas de amor que mandavam e recebiam. Tão para sempre como todas as promessas que faziam. Tão para sempre como a vida longínqua que pensavam juntos. Mas, como nem todo pensamento também é para sempre, ela agora partia.

Não podia esconder sua felicidade em deixar tudo para trás, enquanto ele se esforçava a cada sorriso em demonstrar naturalidade.

 - Boa sorte!

 - Obrigada!

Pegou a pequena caixa e saiu. Duas violetas e alguns pertences - era tudo o que restava.

Entrou no carro calada. Foi assim por todo caminho, até acomodar as plantas de forma delicada e carinhosa.

Dois anos e tudo aquilo. Sua vida nunca passara por tantas turbulências. De fato mudara muito, mas agora estava quase completa. Só faltavam alguns detalhes.

De tudo conservaria apenas uma coisa: os tais olhos cor-de-mel que combinavam com as sobrancelhas.

Seu cabelo longo espalhado pelo travesseiro era tocado angelicalmente e o alívio era tanto que adormeceu sem dizer uma palavra. Sabia que quando acordasse tudo estaria apenas na memória e os potes reservados no armário conteriam apenas pessoas doces. Era essa sua nova vida, ao menos por enquanto.

 



Escrito por Érica Marin às 22h21
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Anjos à espera

 

Ana Clarah, era esse o nome dela. Parecia feita de cera, mas não era. Também não era uma boneca, apesar de parecer. Era um anjo.

Um anjo entre tantos, na fila de uma encarnação. Ansiosa para vir a terra, ansiosa em cumprir sua missão. Mas para isso era necessário muito mais que vontade – era necessário ser desejada.

E Ana se frustrava toda vez que mais um namoro de sua futura mãe se rompia.

Torcia tanto para que as coisas dessem certo que por vezes foi o próprio cupido e se fez com minucioso empenho neste papel, mas nada. Parecia que ela – a mãe – não se sentia muito à vontade com a idéia de compromissos sérios e longínquos ou então eram os relacionamentos em si que não funcionavam direito. E lá se ia mais uma chance de nascer.

Mas Aninha – como era chamada pelos outros anjos – não se conformava.

Os meses passavam rapidamente e o inverno logo chegou. Em mais uma noite de cinema na Augusta, a mãe de Clarah não resistiu à bebida que mais gostava.

 - Um mate-com-leite, por favor!

A voz dela saiu em dueto com a de um rapaz ao seu lado. Olhou e viu que além do gosto pela bebida, que agora era quente pelo frio da cidade, tinha algo em comum com ele. Talvez a cor dos olhos, ou do cabelo. Riram da coincidência da frase e como estavam sozinhos, decidiram tomá-los juntos. E as afinidades não pararam por aí.

Foram citados filmes, livros, exposições e experiências de vida. Maurício era realmente um homem encantador e parecia a entender majestosamente, a compreendendo em seus devaneios, tristezas e ambições literárias. Ele, contador, ela, jornalista.

No momento em que menos esperava, Clarah finalmente tinha a possibilidade de dar uma mãozinha ao destino e colaborar com essa história, para que dessa vez o final fosse feliz. E lá em cima, no alto de suas energias astrais, não somente torcia, como também ansiava pelo desfecho.

Assim são os anjos à espera de uma oportunidade. Zelam, torcem, se entristecem com as nossas atitudes, mas buscam e se enchem de esperança a cada novo encontro. Na verdade, eles constróem parte das histórias e são os verdadeiros responsáveis pelo amor e pelo perdão.

Está certo que nem sempre dão sorte ou acertam. Nem sempre nós humanos correspondemos às suas expectativas e os decepcionamos imensamente, mas aí é que está a diferença entre seres terrestres e celestiais. Eles não se cansam e jamais perdem a fé.

Aninha continua na fila, mas sabe-se perto de realizar finalmente seu sonho. E eles, sua mãe e Maurício, desfrutam os sonhos que sem querer começaram a brotar por acidente do acaso. A prova concreta de que destino é mais que uma palavra, é um caminho.

 

“Não é a criança que vem ao mundo, mas sim o mundo que vem para a criança. Nascer é receber de presente o mundo inteiro”.

                                                                                  (Jostein Gaarder)



Escrito por Érica Marin às 22h50
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Todo tempo

 

Os relógios enlouquecem, talvez como nós mesmos com o passar inevitável das horas. Os dias se somam à história, mostrando que cada minuto pode transformar seu pensamento através de atitudes, suas e das pessoas que te cercam. Estamos, desde que viemos ao mundo, sujeitos ao tempo, todo tempo.

Sujeitos às escolhas, às dúvidas e certezas, constantemente inconstantes ou imutáveis, alternando entre variações que independem de nossas vontades e submersos em oceanos invisíveis e interiores.

Marcam-se as datas, mas jamais o que nelas ocorrem, de forma que todo e qualquer esforço pode ser em vão quando o tempo te traz ou te move conceitos pré-fabricados. A antiga máquina de controle agora serve para te despertar do sono, mas não da cegueira.

Um dia derreteremos todos os relógios do mundo, um a um, e somente assim é que estaremos realmente acordados.

 



Escrito por Érica Marin às 00h40
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Frente ao novo espelho

 

O cabelo preso mostrava a nuca. Os olhos verdes marcados pelo rímel e as bochechas rosadas davam um ar saudável e juvenil. Colocou a pulseira preta e branca que há tempos não colocava, o salto alto e saiu de casa com um ar celestial. Sentia uma liberdade inexplicável. Na verdade ela estava se libertando de uma prisão mental e isso a enchia de felicidade. Uma prisão diferente, de lençóis de seda, palavras carinhosas e vazias, créditos em conta.

Não entendia nada do que estava acontecendo, mas já não queria entender. A sensação de poder fazer o que quisesse a entusiasmava, e não iria deixar que pensamentos filosóficos a atrapalhassem dessa vez.

Fazia planos para o futuro, mas tão diferentes agora. Queria ir para Londres, talvez Madrid. Porém, no momento apenas planejava fazer as unhas no sábado e sair para dançar como antigamente.

É, ela estava de volta. Sem satisfações, cobranças, pesos, discussões. Sem críticas, finalmente.

Poderia criar suas teorias em paz e encontrar a razão maior de sua vida, se é que já não a tinha encontrado. Saboreava com gosto cada página dos livros novos e contemplava a força que estava escondendo de si mesma nos últimos meses.

Isso era a verdadeira felicidade: poder ser ela mesma sem se culpar por isso. Contudo, até o espelho já não era mais o mesmo - estava mais colorido, mais animado. Talvez agora refletisse apenas sua imagem, aquela única, individual, insubstituível.

 

“Nós enxergamos tudo num espelho, obscuramente. Às vezes conseguimos espiar através do espelho e ter uma visão de como são as coisas do outro lado. Se conseguíssemos polir mais esse espelho, veríamos muito mais coisas. Porém não enxergaríamos mais a nós mesmos”.

                                                           (Jostein Gaarder)

 

 

 


 

 

De onde vem a força

 

Acordei, como todo mês, com uma dor que além de me deixar sem ar, me contorcia pela cama. Travesseiro apertado, bolsa de água quente, remédio; nada disso fazia efeito. Malditas sejam as cólicas!

E como se não bastasse, ainda tinha que ajeitar o café da manhã, fazer supermercado, levar a filha à escola, inspecionar o trabalho da diarista, vestir a roupa apertada e o sapato de salto, trabalhar o dia inteiro, almoçar em dez minutos, ir ao salão de cabeleireiro e ficar linda para um jantar de negócios do marido à noite.

Era como se na mesa bem arrumada, repleta de pessoas inteligentes e gentis que falam o tempo todo em como os investimentos valem a pena, a minha dor tivesse passado, mas não - estava apenas maquiada, literalmente, no rosto e na espontaneidade de sorrir mesmo querendo chorar.

Ao chegar em casa, animado pelo vestido preto que me deixava atraente, ele ainda tentou fazer amor. Como? Eu pergunto – uma vez que não conseguia nem pensar com tamanha fragilidade e raiva (sim, porque nada mais irritante do que estar na TPM!).

Não é falta de amor, de atração física. Não é que o relacionamento está esfriando, nem tampouco que exista outra pessoa. Sou eu, minhas estranhezas de mulher e minha pura e inocente vontade de me deitar de lado, me encolher como um feto na barriga da mãe e dormir, dormir como um anjinho. Até claro, o despertador insuportável disparar aquele som terrível e começar tudo de novo.

Tentei explicar, respirei fundo e tive todo cuidado do mundo nas palavras. Se ele não entendeu, ao menos foi bem convincente. E quando tudo parecia estar caminhando bem, no meu cochilo costumeiro que antecede o sono, com as mãos macias dele acariciando a minha orelha, ela grita.

Sim, a bebê queria mamar! E como nesta tarefa não há marido que possa ajudar, lá vou eu, capotando de sono. 

Já sei toda a programação da Tv de madrugada. E aprendi como mãe de primeira viagem, como é a agonia de um seio que se parte pela falta de costume em amamentar. A cada sugada, a vontade de gritar misturada com o carinho inabalável de ver aquele rostinho tão pequeno matando sua fome.

Bem-vinda ao mundo real! – é o que as pessoas mais maduras me dizem e eu mesma começo a aceitar.

Mas tenho que admitir que apesar de trabalhoso e cansativo, nenhuma compra no shopping me fez mais feliz do que todo esse mundo novo que se abre a cada dia. Experiências únicas que me tornam mulher com M em cada lágrima, sorriso, destempero e zelo.

Ao pensar assim qualquer cólica se torna pequena. Deve ser por isso que dizem que as mulheres são fortes: porque sempre vêem o lado positivo, fazendo a beleza do amor ser maior que qualquer dor que possam sentir, transcendendo os limites de si mesmas para viabilizar a família, a vida.

  



Escrito por Érica Marin às 01h21
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Enquanto a luz não se apaga

 

Não é só a lua que é feita de fases. Dizem que as mulheres também, mas na verdade somos todos feitos de centenas de fases, de subidas e quedas.

Não somente isso, somos todos sonhadores utópicos em busca da felicidade, mas nem sempre ela está onde pensávamos. É exatamente assim que quebramos a cara. E exatamente assim também é que nos reerguemos e mudamos a estratégia. O roteiro de sempre que cansa passa a ter nova forma e a estrada já não é mais a mesma.  

Mas nem nós mesmos somos eternamente iguais, nosso corpo, nossos pensamentos, nossos planos. Tudo muda, tudo soma, tudo subtrai. E o que fica são os memoráveis momentos. Pedaços, como sempre digo. E somos, sem dúvida ou vergonha, apenas pedaços de carne costurados com retalhos de pessoas importantes.

À essas pessoas é que normalmente levantamos pela manhã e nos vestimos, nos dedicamos ao trabalho, aos estudos e na construção de nossa sabedoria para podermos nos tornar capazes de levantar a cabeça um dia e saber que fomos pessoas dignas. À essas pessoas que lemos todos os livros, escrevemos cada texto, ouvimos cada música, admiramos cada flor. E não distante, à essas pessoas que abdicamos.

À elas e a nós mesmos. Ao tudo e ao nada.

Abdicamos da razão, das palavras ditas e reditas, dos sonhos puros que se tornam martírios invisíveis de culpa e frustração. E abdicamos porque não encontramos outra saída senão fechar a cortina, pegar a valise e ir embora sem olhar para trás.

De bagagem apenas elas, as recordações, as fotos, os bichinhos de pelúcia e os lugares. Porque por mais que joguemos todos eles fora em sacos de lixo preto, jamais se apaga o que se vive, por mais que isso te consuma pouco a pouco, dia-a-dia.

E assim a vida se segue. Ora feliz, ora triste. Ora te dando aquilo que você tanto quis, ou quem sabe o que nem esperava. Ora te roubando o que lhe era mais valioso, ou tirando o que não lhe era devido. No final, seremos apenas almas. Algumas vagas, outras compostas. Almas que aprenderam ou almas que se recusaram a lição. E teremos pela frente ainda muito o que passar, até que Ele saiba quando parar. Enquanto isso não adianta fugir, não adianta se entregar, mas há de aceitar e aguardar a cura, pois a sanidade dura o tempo próprio que a luz ainda pode brilhar.

 

 


 

 

Santo pão

 

As folhas caídas na tarde de outono faziam um barulho suave, como o desembrulhar de um presente. Sexta-feira, treze de junho, dia de Santo Antônio.

Não que ela acreditasse nessas coisas, mas não custava solicitar uma ajudinha divina, afinal passara mais uma vez o dia anterior, dos Namorados, sozinha.

O fato não era o dia em si, nem as pessoas que não se desgrudavam nas ruas e os corações espalhados pelas lojas dos shoppings. Não eram as flores que saltavam lindas e sorridentes aos seus olhos na floricultura e muito menos aquela noite gostosa que fazia convite a um bom drinque de maracujá. A culpa era do seu gênio, ou quem sabe, do destino que fugia de suas mãos e seus poderes.

Apesar de se achar gorda durante toda tpm, de querer ter mais cinco centímetros de altura e menos cinco de cintura, ela se achava bonita. Assim, meio sem jeito, atrapalhada e espalhafatosa, mas bonita. O jeito com que gesticulava as mãos quando falava chamava a atenção dos homens, mas ela definitivamente não se achava apaixonante. Era mandona, orgulhosa, e isso afastava dela os relacionamentos de longa duração. Quando não eram eles que se cansavam de tanta exigência, era ela.

Mas quer saber? Nem ligava. Ou ao menos, demonstrava que não.

Porém, lá no fundo dormia um choro entalado de quem, mais uma vez, teve seu sonho interrompido. Fazer o quê? – se questionava. E assim, nunca dera sequer o braço a torcer e disse a verdade a eles. Achava inútil se humilhar pela atenção do sexo oposto, uma vez que são todos iguais.

Mas, parece que antes tudo isso era mais fácil. De uns tempos pra cá a sua sensibilidade havia aumentado. Será por causa da idade? Será que porque todas as suas amigas já estavam casadas e com filhos e ela ainda nem sabia dizer o que era ter uma aliança dourada na mão? 

Na verdade ela só sabia sobre o aumento dos preços no supermercado, sobre a alta do dólar e sobre o governo Lula. Sabia sobre todas as marcas de sapato e os preços das bolsas da Daslu. Sabia tanto e ao mesmo tão pouco que se sentia burra quando em festas de família o assunto era casa e marido. Para rebater suas deficiências dizia ser independente e tentava se enganar: “isso tudo é bobagem”.

Talvez fosse apenas uma reação natural da modernidade, ou quem sabe uma inspiração exagerada daquelas capas de revistas femininas, onde esquecem que antes de ser uma profissional, a mulher tem desejos de mulher e suas necessidades prioritárias como amor e carinho, pois ninguém no mundo pode ser feliz sozinha. E era exatamente nisso que ela estava pensando no bendito dia do tal santo casamenteiro. Se fosse besteira ou não, dessa vez iria arriscar e decidiu fazer uma promessa.

Foi à igreja e entrou em uma fila gigantesca em busca de um mísero pedacinho de pão velho, tal qual aprendera ali o significado: fazia milagres!

Não acreditava muito, mas deveria haver algum sentido para que aquelas centenas de solteiras se sacrificassem naquela fila e então, agüentou firmemente a espera.

Chegando sua vez tentou imaginar como ela comeria o tal pedaço, que não parecia nada com um belo lanche do Mac Donald’s. Entrou na primeira padaria que enxergara para com um copo de leite poder cumprir a missão e atingir o milagre de não ficar para titia. Ao seu lado no balcão um homem ria ao notar o pedaço de pão em suas mãos e interliga-lo à imensa fila do lado de fora. Ela nem percebeu, e ao pedir o leite, ele pediu o café, em uma sincronia de palavras surpreendente.

Pois é, ele era o café, ela o leite. Visivelmente diferentes. Ele alto, ela baixa. Ele sério, ela cativante. Começaram a conversar e ela lhe contou sua aventura atrás do pequeno pãozinho. Pela primeira vez foi sincera com um desconhecido sem ter intenções. Ele se divertia a cada palavra que ouvia e a achou interessante por isso mesmo, o humor simples de uma mulher comum. A beleza ali nem era tão importante, mas não seria mentira afirmar que ambos haviam notado os pontos físicos que lhe agradavam mutuamente.

Trocaram telefone, marcaram alguns drinques e conversavam de tudo a cada novo encontro, até que em uma bela noite de outono, dia de Santo Antônio, há exatamente um ano após terem se conhecido, começaram a namorar. Se casaram e agora estão ansiosos pelo nascimento do primeiro filho, que se chamará – como não poderia deixar de ser – Antônio, em homenagem ao santo que os uniu.

Hoje ela ministra palestras motivacionais para as solteiras que ainda não encontraram o príncipe encantado. Conta sua história, incentiva a autoconfiança e o acaso e diz que o segredo é aguardar o momento certo para florir. Continua não acreditando em superstições, mas todo o ano não deixa de ofertar uma vela cor-de-rosa (cor do amor) a ele que se tornou seu santinho de devoção. Coloca tudo no altar que fez seu marido construir em casa junto a um pedaço de papel com a frase: “Agradeço o milagre recebido”.

  



Escrito por Érica Marin às 00h41
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Incondicional

 

Seria mentira se dissesse que só vislumbro o feio. Admiro a beleza e a sinto leve em meus dias. Contida em livros, fotos, filmes, textos, quadros e toda forma válida de expressão, vejo o quanto há ainda por vir. E por mais que tente me convencer que não, ainda acredito na bondade. E o amor.

Hoje, dia dos namorados, pode parecer clichê falar sobre ele, esse sentimento capaz de nos levar ao céu e ao inferno ao mesmo tempo, mas falemos e sejamos clichês então.

E já que o amor anda tão banalizado, falemos do melhor: o incondicional.

Aplicável no amor materno – ao menos naquele de fato – e alguns raros encontros entre casais, inabalavelmente une ou se mantém ainda que distante. E se acredito nele, é porque já tive provas concretas de que existe, senão, diante de meu ceticismo e niilismo já teria se dissolvido. Provas não, tenho exemplos. Exemplos vivos e diários como meus avós. Saborearam a vida jovem e agora aguardam com serenidade o fim de todas as fases, passadas majoritariamente juntos, e mais que isso, divididos. Na verdade eles são pedaços um do outro que jamais serão separados, mostrando através do tempo que a felicidade conjunta e a construção de uma vida amorosa feliz é possível. Está certo que os tempos são outros e agora tudo anda muito confuso, mas sabe-se lá o quê esperar do destino ou da infinita sabedoria dos deuses, que devem estar a um pensamento de distância de nós, e um pensamento longínquo demais para que possamos alcançá-los.

Para isso, mais que um dia que os casais saem para comemorar, comprar flores e champanhe ou simplesmente nem se recordar – pois nem todo mundo é romântico – a análise deveria começar de dentro para fora a fim de comprovar se estamos sendo incondicionais. Amar sem a pretensão de receber o amor da mesma forma, ter paciência para esperar o tempo do outro e a maturidade que nem sempre chega aos dois de uma só vez e a constatação de que uma vida não se faz de minutos tensos.

Queria com esse, apenas homenagear o amor sem palavras, sem cartas e sem presentes. O amor que antes de nos tornarmos adultos, já existia. Aquele que conheci quando ainda era uma garota que corria pelo sítio do meu avô. Falo deste mesmo, falo dele. Falo do amor que sempre senti, mas que nunca ouvi ou falei. Falo do que sempre presenciei. Do casamento antigo, dos filhos criados com tanto esforço, da educação exemplar, do silêncio que muito ensina, da coragem com os problemas, da força diante das perdas, da fé diante de Deus. E da calma, da aceitação que sufoca o desespero e que nos faz ver que jamais estaremos longe, ainda que separados pela distância e pelas muitas vidas.

Este homem faz parte da beleza primordial da vida e da integridade que poucos conhecem. Faz parte de mim, e fará sempre. Meu avô, mais que um namorado que ame com intensidade e carinho, merece especial atenção e é a ele que dedico todo meu pensamento e todo meu amor incondicional neste dia.

 


 

 

O Segredo

 

Tenho que admitir que admiro a forma das pessoas se comportarem. Estão sempre alegres, ou fingem estar. Estão sempre dispostas, ou fingem estar. Na verdade acho que admiro mesmo é esse dom de fingir que elas tem. Será que assistem muita novela e querem trazer à vida real um pouco de ficção e artes cênicas?

Não me considero uma pessoa adaptável, muito pelo contrário, e desta forma as passagens na minha vida se tornam únicas, independente do tempo em que acontecem.

Embora não seja mais uma adolescente há algum tempo, ultimamente tenho tido experiências que me fazem descobrir o quanto não tinha visão nenhuma desse mundo “adulto” em que vivemos, e o que mais me chamou a atenção foi a vida profissional.

Os adultos se esquecem de tudo que foram quando crianças e adolescentes e de tudo que aprenderam em casa, passando a se comportar da maneira mais egocêntrica possível quando começam a trabalhar. Eles não se importam mais com as pessoas em si, mas com os números que elas serão capazes de produzir ou não. Passam a se sentir importantes, auto-suficientes e de uma inteligência insubstituível, mesmo quando cometem os maiores erros de português já vistos. Isso sem contar a hipocrisia e falsidade existentes nesse meio. Todo mundo se odeia e vive aos corredores e toilette’s falando mal reciprocamente, mas se abraçam, se beijam e trocam apelidos carinhosos durante o expediente. No fundo, quando te perguntam se você têm se sentido bem, querem mesmo é saber das novidades, dos baffon’s para contar aos demais. E pra eles, essa característica é natural e necessária para se “crescer” na empresa.

Discordo dessa tese. Aliás, discordo com toda minha força desse capitalismo ridículo que vemos todos os dias. É um absurdo sermos tratados assim, como máquinas de serviços gerais alienadas e sorridentes. Acho absurdo também, e vergonhoso, uma pessoa racional comprar um livro intitulado “O Segredo”, quando na verdade o que esse best-seller americanizado diz é aquilo que estamos cansados de saber: “o pensamento tem poder”. Será que foi preciso escrever 350 páginas para citar uma frase? Ou fazer um documentário extenso e cansativo para reafirmar a mesma coisa? E o pior é que as pessoas que se acham inteligentes pensam que isso é o máximo. Não é engraçado?

Na verdade o segredo é um só: caráter. Aquele que aprendemos quando ainda nem sabemos andar. Aquele que trazemos dentro de nós mesmos através dos anos e mostramos no dia-a-dia, nas atitudes no trabalho, em casa, na faculdade, com os amigos, com as crianças. Aquele que por vezes está escondido nos bolsos dos paletós ou nas bolsas de couro. Aquele que muita gente não sabe ao menos o significado e ainda que procure no Aurélio, não irá entender.

Alienação, burrice, insensibilidade, auto-suficiência e arrogância fazem o mundo corporativo dos dias atuais e isso lamentavelmente é tido como natural pelas pessoas, pois a acomodação ou o interesse pelo poder falam mais alto que a vontade de uma vida simples e feliz. O riso sem motivo é mecanizado e facilmente encontrado nos escritórios. Uma pena que a sinceridade tenha sido eliminada através de circulares sem sentido.

 



Escrito por Érica Marin às 21h44
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Felicidade barata

 

Descobri o que é felicidade!

Felicidade são sorrisos.

Sorrisos nas festas, nos bares, no trabalho, nas ruas, nas fotos, na internet. Sorriso em todos os lugares que estamos, em tudo o que pensamos (se pensamos), tudo que fazemos. Sorrir é ser feliz!

Não importa o que sente de verdade, o importante é sorrir.

Hoje esse é o prato do dia: felicidade barata. Aquela que se compra em qualquer esquina movimentada, em qualquer bar da moda, em qualquer vitrine cara ou em qualquer menção de populariedade.

Sorriso no rosto e olhar parado, feito boneco inflável e oco.

As pessoas estão ficando mais burras a cada dia, ou então se cansaram de pensar. Resolveram então sorrir, ou rir. Talvez assim se sintam mais bonitas, inteligentes, admiradas. Talvez isso supra seus egos e as auto-afirmem em uma sociedade tão complicada. 

É impossível ser feliz o tempo todo, e é uma pena que a maioria das pessoas não assuma isso aos outros e a si mesmas, em uma cobrança irreal e desleal. 

Esse pode ser um dos fatores das depressões, o fato de que temos que estar sempre felizes e sorridentes, como garotos-propaganda de cremes dentais. 

Mas não somos assim, tão perfeitos. E jamais seremos, pois somos humanos. Lamentavelmente.  

"Feliz daquele que sabe sofrer."

 



Escrito por Érica Marin às 05h21
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Superficial

 

Há dias percebo uma prisão de pensamentos insistentes. E essa insistência toda, tão degradada, me agride pouco a pouco como tapas do cotidiano de uma vida sem graça e rotineira, típica daquelas mulheres que sempre abominei.

Mas essa adversidade de posturas se faz tão gratuitamente que não consigo explicar sua existência, tampouco saber onde foi que ela começou dentro da minha mente embaralhada.

Angústias de uma melancolia exacerbada ou a constatação de que não sou mais uma menina cheia de sonhos cor-de-rosa e imbecis contos de fadas que não servem para nada, além de esconder a realidade da vida.

Sobrevivi. Só percebi isso quando finalmente coloquei minha cabeça fora d’água e consegui respirar.

Na verdade a capacidade nos últimos tempos fora ampliada em mil vezes. Me desvencilhei do orgulho, e isso era por todos meu maior defeito, agora não mais existente.

Os gritos que ouvia estavam amortecidos pela queda, que absurdamente não me assusta mais. Sim, breves, frios e lentos, eles estavam todos lá, empilhados em um calendário como livros na minha sonhada biblioteca imaginária: os dias.

Superficial, observo a degradação da imagem altiva e contemplo a superioridade que nem imaginava existir pela inteligência simples. Nem era tudo aquilo que esperava, na mais alta ilusão de ótica. Assim, nem o desprezo e a palidez são notados.

Um nada constante de mutações ansiando pelo tudo.

É justo e necessário, pecaminoso e suave. Doía como facas. E o cérebro disfuncional entrava em ação, apagando qualquer vestígio de sanidade mental ou emocional.

O quadro não parecia mais verdadeiro como antes e as palavras eram todas mentiras prontas e enlatadas, prestes a serem consumidas dentro de um prazo chulo de validade.

E eu ainda me questionava tanto. Ainda me fazia perguntas infindáveis sobre uma existência particularmente interessante e dispersa, enquanto o que aparecia na tela era um montante de carne novo e feio, maltratado pelo excesso de química, água oxigenada e burrice ostentando risos desenfreados e histéricos. Pois é, vulgarização e banalização das posses. Mas mal sabia o quanto era doce.

Minha filha ficara então, desapontada comigo. O anjo de cabelos castanho-claro ainda repousava suas asas sobre nós dois.

Enquanto isso me perdia ainda mais de mim. Por entre esquinas, cidades, países ou estados, psíquicos talvez, inertes ou esquecidos pelos famosos lapsos de memória. Culpados ou inocentes da maior batalha do mundo, o dizer não aos valores ocidentais de uma cultura moralista e démodé. E eu que acreditava que a modernidade era o livre arbítrio pude notar que nem sempre o extinguir dos valores vale a pena.

"O que sinto, não ajo. 

O que acho, não penso.

O que penso, não sinto.

Do que sei sou ignorante.

Do que sinto não ignoro.

Não me entendo e ajo como se me entendesse."

(Clarisse Lispector)


Opção

 

Ainda penso que os seres humanos é que deveriam viver atrás das grades, e não eles.  

Somos capazes das maiores atrocidades sem o menor motivo, enquanto os que chamamos de “bichos irracionais” só demonstram algum perigo quando encurralados. Pense no zoológico. Se imagine do outro lado, sendo devastado por olhares curiosos. Você não se cansaria?

Até onde agüentaria?

Esqueceria o instinto e se entregaria à mordomia de comer no horário todos os dias ou iria lutar por sua liberdade, ainda que fosse em vão?

Se compararmos, veremos o quanto podemos estar em situações parecidíssimas com as deles. Estamos em jaulas invisíveis, manipulados pelo poder, pela mídia e pelo egocentrismo, nos expondo em orkut’s, sendo julgados por olhares impiedosos e entregando nossa personalidade a custa de bananas. Mas eles não têm opção. E nós, será que ainda temos?

 



Escrito por Érica Marin às 21h13
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Modernas bonecas

                          “Os olhos mentem dia e noite a dor da gente”

 

Ser boneca. Pintar o rosto de forma alegre, sair pela rua em passos largos e sorrir para cada pessoa que passar. Por entre pensamentos consumistas, sentir o tal acréscimo de estima por si mesma, como diz a frase mais bonita que já li em um romance:

“(...) Tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido; sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo conduzia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações!”

Nunca consegui ser uma delas. Ser boneca pode parecer bonito, mas é fútil. Ninguém é feliz o tempo todo, tampouco forte. Todo mundo fica triste, gripado, inciumado, revoltado, bravo. Todo mundo fica feio quando chora, quando acorda inchado, quando não penteia o cabelo. Ninguém é perfeito, mas às vezes nos esquecemos disso e exigimos demais de nós mesmos.

Estive pensando...

Engraçado como nunca encontrei em alguém aquilo que tanto admiro. Como me disseram uma vez: “Quem não sabe o que procura, não reconhece quando encontra”. Mais engraçado ainda é lembrar que quem me disse essa frase certamente nunca mais me dirá novamente. Mais uma daquelas pessoas que passam por nossas vidas assim, despretensiosamente, talvez para trazer alguma lição, e eu acredito que esta seria exatamente o sentido da frase acima.

Citações. De tudo que lia, desde criança, costumava demarcar com minha caneta marca texto as que considerava “de impacto”. As que mais que chamavam a atenção, as que um dia gostaria de dizer a alguém, as que gostaria de ouvir. Frases inteligentes, frases sensatas, frases românticas, frases duras.

Esse texto na verdade não será meu, mas de todos eles, ou parte, claro, pois são muitos.

Oscar Wilde sempre foi minha citação preferida. Drummond, meu eterno poeta. Clarice Lispector, meu sonho de consumo. Fernanda Young, minha atualidade. Karl Marx, a inteligência escrevendo sobre a sociedade. Arnaldo Jabor, meu colega mais engraçado. Eça de Queiroz, minha doçura romântica. E por aí vai.

Eles se tornaram amigos tão íntimos que me pego em surtos pseudo-cult’s tentando imitá-los durante a madrugada, velha conhecida das inspirações. Não me lembro quem disse isso, mas “é à noite que as palavras se fazem”.

Espetacular a maneira de como a vida imita a arte, ou, a arte imita a vida. Espetacular o dom de tornar encantadora uma coisa tão dolorosa, pois normalmente é na tristeza que encontramos mais aptidão para escrever. Digo isso por mim e por alguns poucos que conheço.

Confesso que por vezes tentei ser uma delas, as tais bonecas. Me senti um lixo humano. Não sou, nem faço alguma questão de ser assim, superficial, apesar de saber que isso não iria me expor tanto e me causaria uma gostosa sensação de triunfo. Mas, pense: triunfamos não somente quando a nós mesmos? Pela resposta afirmativa, desisto da idéia e volto a ser a mesma de antes, dos olhos brilhantes de felicidade ou lacrimejados de tristeza. Intensa em cada sentimento, como sempre. Dramática às vezes, sinto a dor ampliada em mil vezes, mas reconheço um bom momento e o guardo eternamente em cada detalhe, o tornando motivo para um sorriso sutil no canto da boca.

Não sei como cabem tantos pensamentos simultâneos em um só cérebro. E essa maldita música que nunca cessa. Devo estar ficando louca – ou já era e apenas agora assumo de vez.

Mas até pra isso encontro uma citação, musical, aliás, da melhor banda de citações do mundo – do meu mundo – “Consegui meu equilíbrio cortejando a insanidade”.

Sozinha na sala, olho para o lado e vejo alguém. Fruto do meu fértil imaginário ou somente mais uma visão enigmática e sensitiva. Deveria mesmo freqüentar as palestras pagãs, já que me identifico tanto.

Me perco, volto ao princípio, refaço o caminho e tento outra vez. É assim sempre, e pra sempre será. Não quero ser óbvia como um ser que nasce, cresce, se reproduz e morre. Quero ser surpreendente e essa idéia me fascina. Mas ainda me sinto egoísta ao pensar assim. Se bem que, alguém pensou a mesma coisa quando não pensou em mim?

Não.

Deleto o pensamento com o apertar do dedo no teclado.

Sou um computador. Tenho memória, tenho lixeira, tenho álbuns de fotos, tenho delete. Arquivos mortos e novos, planilhas e textos. Viu?

É, tenho que admitir que entre ser uma boneca e um computador, é melhor a segunda opção, por mais que a estética não colabore. [e assim se fez minha mais nova teoria]

 


 

 

 

Vida de gato

 

Sou um gato. Descobri isso há pouco tempo.
Um gato de casa, não de rua nem de apartamento.

Mestiço; vira-lata com raça pura. Tenho minhas esquisitices e minha ternura.

Gosto da escuridão, do leve frio da madrugada e do silêncio da cidade vazia. Mas minhas noites diferem das suas.

Me arranho sozinha. Às vezes não sei controlar a impulsividade das minhas unhas.
Sobrevivo pela liberdade – não sei viver sem ela. E se me vejo acuada, abaixo minhas orelhas e espero a hora certa.

Vivo intensamente e saborosamente entre cerejas e livros, músicas e teorias.
Sou um gato independente e sentimental, mas só quero carinho quando tenho vontade.
Odeio seres humanos limitados, admiro a inteligência quase inexistente e palavras subliminares e absurdas de textos difíceis.

Cuidadosamente observo a relação entre meus pensamentos, meu pêlo e meus bigodes, tão sensíveis quanto meu corpo a toques sutis e adoro deitar preguiçosamente ao sol da manhã.
Um gato de vida mansa, mas de atitudes ferozes. Um gato que odeia fraqueza ou algo que o valha. Um gato de verdade, não uma farsa, muito menos um bibelô de vitrine ou um bichano irracional. Talvez seja mais atroz do que possa parecer, mas essa é a defesa mais majestosa e interessante da minha personalidade felina.

 



Escrito por Érica Marin às 00h22
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“O nosso maior medo não é sermos inadequados. O nosso maior medo é sermos infinitamente poderosos. É a nossa própria luz, não a nossa escuridão, que nos amedronta.
Sermos pequenos não engrandece o mundo. Não há nada de transcendente em sermos pequenos, pois assim os outros não se sentirão inseguros ao nosso lado.
Todos estamos destinados a brilhar, como as crianças. Não apenas alguns de nós, mas todos. E, enquanto irradiamos a nossa admirável luz interior, inconscientemente estamos a permitir aos outros fazer o mesmo.
E, quando nos libertarmos dos nossos próprios medos, a nossa presença automaticamente libertará os medos dos outros."

 


 

La feuille

 

Era uma fera pronta para o ataque. Qualquer sinal vital que passasse por perto se tornava motivo para esticar suas longas unhas naquela pata tão pequena. Estava aprendendo a se defender.

Tão bonita e tão perigosa. Sabia muito bem o poder de seus dentes afiados e suas unhas finas como agulhas. Sabia o estrago que poderia causar na pele de qualquer humano que tentasse lhe pegar quando e como queria, sem se importar se estava lhe machucando.

Deitada na pequena cela, olhando o escuro da noite cheia de estrelas, se remoia pela dor que lhe havia acometido, mais uma vez, mas nenhuma lágrima caiu. Maior que a dor, era a raiva.

Enfurecida, decidiu cuidar de seu belo pêlo cinza. Acordou com a majestosa sensação de que logo tudo seria tão pequeno quanto uma formiga, pronta a ser esmagada por suas macias, suaves e pesadas patas. Com esse pensamento tomou todo o leite do prato e se refugiou em um canto. Como boa fera não iria mais se lamentar, curaria suas feridas e partiria para uma cuidadosa estratégia, já sem se lembrar mais do tempo em que era filhote.

"Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo".

(Carlos Drummond de Andrade)

 



Escrito por Érica Marin às 22h54
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 As assistentes de Deus

O corpo dela mudou. Os seios aumentaram, a barriga cresceu, a cintura se foi.

As compras não são mais pra ela, mas não se entristece por isso.

Sofre uma dor sem igual, mas quando escorrem lágrimas são de felicidade.

E então pode ver a pele branca e de tão novinha toda enrugada. Os dedos tão pequenos que dá medo de pegar, assim como todo frágil corpo. O som gostoso da gargalhada e o choro preocupante.

A sensação de que nasceu com o único intuito de viver aquela fase, aqueles dias.

Ser mãe.

Gerar por 9 meses um pedaço dela mesma misturado com parte da pessoa que ama. Gerar a vida em sua própria. Ser importante, vital, única.

Ver em outro corpo a cor dos seus olhos, o risco da sobrancelha igualzinho o dele. Poder planejar a busca na escola, os churrascos de domingo.

Certamente a melhor coisa que sentiu. Mas, era tudo tão novo: a casa, o casamento, a filha. E ainda assim, mantinha a independência.

Ser mulher.

Ser milhares de pessoas em uma só. Idealizar, seguir, insistir.

Tudo o que faz a diferença no sexo frágil. A delicadeza e a força, a suavidade e a correção.

A arte de reproduzir, a arte de dar continuidade aos sonhos, ao mundo.

E pensar que tudo faz parte de um projeto. E dele "se faz o céu".

Para que um dia ouçamos a alegria e a fertilidade bater à nossa porta sem nos preocupar com a violência, com as drogas ou qualquer outro tipo de insônia tão frequente, é bom já começarmos a sentir tudo isso.

Uma declaração de amor. Uma utopia real.

Uma luta e uma lembrança.

Ser sensível e se permitir a empatia, pois são elas que nos iluminam e nos dão o ar que respiramos.

Valiosas mulheres que nos colocam no colo quando nos sentimos sozinhas e nos apóiam quando o resto do mundo vira as costas.

Valiosas mulheres que entendem nossos olhos cheios de vontade de chorar porque o amor da nossa vida foi embora ou porque passamos no vestibular.

Valiosas e fabulosas porque existem na coragem e nunca nos deixam desistir ou desanimar.

Mães, aquelas que existem porque Deus precisava de assistentes.

 


Linhas que surgem automaticamente à medida que formulo meus pensamentos, normalmente tão confusos entre si que necessitam de uma fila para entrarem em ordem. Um atrás do outro, como crianças no colégio.

E não há como separá-los das lembranças. Meus pensamentos sempre foram desesperadamente apaixonados por elas.

O sufoco que antecede o desabafo vem assim, rápido e fugaz e saio de uma sala ou uma situação ciente de que tudo o que eu preciso é um computador ou papel e caneta.

Mania de escrever.

Essa forma de expressão, minha e de milhares de pessoas, muito me é peculiar e íntima. Em meus textos sou única, majoritária. Sou eu quem decide como a história começa e como termina, se as palavras serão alegres ou tristes, emocionantes ou práticas. Ali, no meu mundo, eu sou a dona da história e tenho mais que uma vida a fazer. Posso ter várias em uma só, posso ser mulher, criança, homem, bicho. Posso nascer, morrer, voar, ser mãe, sem nada interferir em meu corpo “de verdade”. Mas, apesar de saber de tudo isso, meus personagens carregam sempre um pouco de mim. São pedaços, partes de uma só que por mais que estejam em situações nunca presenciadas, trazem minha abstração, minhas utopias, minhas idéias e meus sonhos. Todos eles me contêm, e eu os contenho um a um. São eles que me formam, que me completam e me erguem quando caio. São eles, sentidos das muitas linhas que escrevo, que me tiram do fundo da piscina quando pareço estar sem respirar, afogada por minhas dores psicossomáticas (mas sempre incrivelmente reais).

E é por esse motivo que tenho por meus textos um amor imensurável e indefinível que me leva ao ciúme passional. Ninguém tem o direito de reescrever o que sinto, só eu. Porque não se trata de matérias sobre o aquecimento global, o crédito de carbono ou as eleições dos Estados Unidos; se trata de mim, do meu ego, dos meus momentos, das minhas vitórias e derrotas. Tudo muito pessoal para ser compartilhado além de uma simples leitura e comentário. E eu, no mais alto egoísmo, apenas multiplico minhas linhas se em prol de algo muito mais realizador que uma página na web.

Mas há controvérsias e quem critique minha opção. Escrever pode parecer ridículo quando o que esperam de você é clareza e atitude. Ainda assim, continuo achando a arte da escrita muito mais bela que qualquer outra forma e então, não mudo. Calo minha boca por vezes, mas não minhas mãos, tão descontroladas quanto meu humor instável e minha impulsividade juvenil.

E essa mania, essa vontade e essa força não agridem meu espaço social porque sei que tudo o que anseio em minhas queridas e doces palavras só serão de fato realizadas, se partidas para a o lado de fora do branco da tela ou do papel. Faço o que tiver de fazer eu mesma, sem personagens ou terceira pessoa, com minhas pernas curtas, minhas mãos pequenas e meus olhos grandes. Sei que dependo do salto e do profissionalismo do dia-a-dia e que não posso fugir disso, mas quero a leveza do meu mundo interno quando voltar pra casa e ter uma idéia de texto na cabeça, porque sou essa e não sei viver sem ser assim, dupla em minhas palavras absurdas.

 



Escrito por Érica Marin às 21h36
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Só a bailarina que não tem

 

Pegou a mochila e olhou no relógio. Mais um dia atrasada.

Tomou o café em um gole e com as chaves nas mãos saiu afobada. Era dia de balé, de se sentir a boneca mais linda do mundo, a menina que não tinha problemas, a majestade. A roupa rosa e delicada apenas confirmava o que todos já sabiam: a bailarina é perfeita.

Não havia nada no mundo que pudesse tirar aquela imagem tão bela dos seus pés rodopiando suavemente o assoalho de madeira e ela, ainda que por dentro não estivesse bem, se esquecia até mesmo que era ser humano e se entregava ao som, aos movimentos, aos sonhos.

Sentia-se demasiadamente grande e altiva naquele instante, apesar de ser a mais baixa do colégio. Era de fato leve, feita de pano, e assistia o decorrer de sua idade assim, como telespectadora à frente da televisão de sua vida.  Como companhia apenas Sophia, sua fiel gata cinza. Como companhia a infinita solidão e a força de seus pensamentos.

E enquanto saboreava o gosto de tudo isso, era observada pela felina em silêncio.

Clarah estava doente. Mais do que esperava, menos do que parecia. Mas persistia e jamais iria deixar que a olhassem com piedade. Não ela.

Ao terminar a tenra valsa, caiu no chão e no choro. Suas pernas já não eram mais as mesmas. Mas, na tentativa de se animar lembrou que de todas, era a mais bonita das meninas de sua idade. Beleza; o que faria com ela agora?

Era na verdade como uma obra de arte que se vê, se admira, mas que jamais se pode tocar. Era a bailarina e nada mais poderia fazer senão, dançar. 

 



Escrito por Érica Marin às 01h10
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Mundo globalizado?

 

É comum ouvir por aí a sandice de que o mundo e as empresas agora estão se globalizando e se preocupando com o desenvolvimento sustentável. Todos os dias notas e mais notas são publicadas aos montes, feitas através de releases direcionados das assessorias e/ ou departamentos de marketing ressaltando os bons relacionamentos interpessoais, o respeito ao meio-ambiente e a felicidade global. Pura mentira. Na verdade as empresas continuam como sempre foram e se importam com a mesma coisa que se importaram desde o início dos tempos: dinheiro.

Ninguém passa de números, e Luiz Marins que me perdoe, mas dizer que fazemos alguma diferença é pura bobagem, uma vez que há milhares de desempregados no país dispostos a ocupar nosso lugar pelo terço do salário. Isso, sem contar a competência, que está cada dia menos presente nas repartições públicas e privadas.

Capitalismo caos, como diria Karl Marx.

E apesar de todo esse péssimo quadro da alienação trabalhista, palestrantes motivacionais pregam o amor à camisa, quando isso só representa o fortalecimento industrial e a submissão do proletariado. Ridícula essa situação enrustida da força que julgamos ter, quando na verdade estamos cada vez mais expostos a fazer o que eles querem apenas para não ficarmos sem dinheiro e sem ter do que viver.

Fico indignada ao constatar a manipulação que o dinheiro e o poder exerce.

Mas, e a globalização? A justiça social, a estrutura funcional onde se determina que funcionários motivados rendem mais?

Motivação não passa de uma demagogia falada em reuniões catastróficas, as tais perdas de tempo, onde se fala muito e se faz pouco, às vezes nada.

Penso que deveríamos todos virar hippies. Eles sim é que devem ser felizes, ou ao menos vivem de acordo com suas ideologias.

Deveríamos ser hippies ou comunistas, quem sabe. Espalhar cartazes pela cidade, pintar os rostos e assumir os narizes de palhaços que há tempos somos obrigados a engolir.  

O quê esperar de uma nação que coloca o Lula na presidência?

O quê esperar de uma legislação que não paga hora extra, mas desconta os atrasos?

O quê esperar de uma justiça que penaliza assassinos com no máximo 30 anos de prisão e os liberta em 3?

O quê esperar de um país que absolve Bida no caso de Dorothy Stang?

Jornalistas nunca deveriam pertencer a um lugar, emprego, pessoa ou estado. Jornalistas deveriam ser livres, se sentirem livres. Porque a prisão que sentimos é muito maior que os limites de um Cep ou uma carteira assinada. A prisão que me refiro é a de pensamento, é aquela que nos julga burros quando na verdade só estamos nos fazendo, sim, porque para sobreviver nesse mundo “globalizado” e injusto, só vestindo a carapuça e se fazendo de morto, como os cachorros. Mas claro, falo dos jornalistas natos, e não dos modistas. E essa “nata” se vê pela vocação e não pelo status. Por mais que a moda agora seja ser sensacionalista com os Nardoni, fazer piadas sobre o Ronaldinho e os travestis, ler o Segredo e fazer cara de conteúdo. Por mais que seja bonito participar das festas sorridentes e satisfeitos ainda que nos falte tudo, dizer ótimo quando te perguntam como está e se auto-entitular um otimista. Por mais que o importante agora seja esconder o que se pensa, o que se vive e o que se faz. A moda é ser isso, é não ser ninguém.

 

                                                                       "Vamos pedir piedade

                                                                       Senhor, piedade

                                                                       Dessa gente careta e covarde"

 



Escrito por Érica Marin às 23h57
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Le faboulex destin 

Destino fabuloso, era exatamente isso que esperava. Aliás, o destino me parecia bem mais familiar naquela época. Quando se é adolescente ele se baseia em ser bem aceita no colégio, não ter espinhas no rosto, emagrecer alguns quilos, fazer sucesso com os garotos e ganhar boas notas. Enfim, ser a capa da Capricho e da Veja ao mesmo tempo.

Mas, todos os sonhos de consumo se alteram com o tempo, fazendo com que a ânsia do destino também tome outras formas. Agora não desejo mais tanta notoriedade, nem tampouco ostentar uma imagem perfeita inexistente e irreal.

É engraçado como os sonhos simples podem se tornar complicados. É estranha a maneira das pessoas se comportarem quando querem alguma coisa, e mais estranha ainda é a mania de esperar que as coisas aconteçam sozinhas. Não sei se é ceticismo, mas nunca fui muito boa em esperar. Na verdade, odeio espera. Seja em consulta médica, fila de banco, em algum encontro ou durante os atropelos da vida, esperar é algo extremamente difícil, principalmente quando não tenho a certeza de conquistar o que quero. Talvez por isso seja tão ansiosa, beirando ao imediatismo.

E de imediato, sei que o destino não tem nada. Mas, como boa jornalista ou algo que o valha, trabalho com os fatos, e então, nada que ainda não tenha acontecido é de fato, um fato.

Pois é, se Amélie Poulain falasse... Talvez ela fosse eu, ou eu fosse ela de verdade. Se entendesse quão é forte e frágil, misteriosa e tão decifrável como 2+2. Mas a conclusão é que não existe fim para o que ainda não acabou, como um filme de trilogia ou um livro que a cada edição ganha centenas de novas páginas.

O que sei é que nunca sabemos quando é o tal destino, por isso ele deve ser o hoje, com o gosto inesperado do amanhã.

Certa vez pulei uma fase. Fui para o final sem passar pelo meio. Não deu certo. Voltei então para o início e do início ao meio. Agora espero o fim. Deixa estar.

Mas o que importa mesmo é que de um jeito ou de outro, todos nós ansiamos pelo destino como se ele fosse a plena salvação de todos os nossos problemas. O destino representa o reconhecimento de nosso esforço e a regra da felicidade alcançada, o êxtase da realização pessoal e profissional. Mas, será que ele será exatamente assim?

Essa dúvida é que nos faz valorizar a viagem antes da chegada, no segundo lance do acaso.

 



Escrito por Érica Marin às 06h06
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A eternidade de um rei

 

Ele talvez não tenha ficado sabendo. Talvez não tenhamos dito o quanto foi importante pra gente. Na verdade, com as tarefas do fim da faculdade, acabamos por não expressar o devido valor que eles – personagens reais – como afirmamos sempre em nosso livro-reportagem (TCC), tiveram em nossas vidas. Não apenas por terem nos autorizado a cobaia das primeiras entrevistas desajeitadas de jornalistas inexperientes, mas por terem sido exemplos de força e determinação, por terem incentivado um sonho e torná-lo possível e principalmente por compartilhar conosco, até então estranhos, suas trajetórias admiráveis.

Paulo Telles, nosso eterno Rei dos Reis, deixará saudade. À nós, à família, ao samba, ao carnaval, e à cada pessoa que viu seu sorriso nas quadras e no Sambódromo.

Uma lamentável perda com uma lembrança inesquecível impressa em pequenas páginas do livro “O samba transforma”. Pouco, perto do muito que gostaríamos de ter lhe proporcionado, mas muito pelo valor que nos foi apresentado. Agradecemos a imensa alegria estampada naquele segundo capítulo e a honra de conhecer a vida de um homem como poucos.

Pois é, quem é rei nunca perde a majestade.

 



Escrito por Érica Marin às 23h13
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Quando as estrelas caem

 

Quando as estrelas caem não adianta fugir.

Quando elas, uma a uma, caírem em direção ao chão, não corra nem se esconda.

Elas virão todas em sua direção, mas não tente segurá-las.

Elas lhe ferem mesmo sem saber e te fazem sangrar sem que você sinta.

Quando as estrelas caem, elas parecem apenas descer dos céus. Você se pergunta o que fez de tão bom para merecê-las, e não percebe que está morrendo pouco a pouco.

Elas te dão bom dia, tomam café da manhã e almoçam ao seu lado, mas à noite voltam aos seus lugares, te deixando na solidão dos pensamentos confusos.

E quando você não conseguir mais respirar, elas partem.

As estrelas surgem como raios de luz, mas são amparadas pela escuridão. Se mantém do mistério que fascina e do gosto da dificuldade. São doces, afáveis, mas muito frias, tanto que são capazes de congelar até o dia mais quente. Trazem consigo uma felicidade duvidosa e risos nervosos. São vulcõezinhos disfarçados, prontos a entrarem em erupção no céu, ou quem sabe, na palma da sua mão.

As estrelas são lindas, mas bastante perigosas. E quando elas decidem cair, nada as faz mudar de idéia.

Quando as estrelas caem nos dividimos entre o bem e o mal, nos perguntamos de que lado definitivamente estamos e começamos uma grande batalha. Jogamos muita coisa fora e encontramos muitos apetrechos novos que não nos deixam desistir. E aí, nos enxergamos tão distantes que não achamos mais a estrada, escolhemos outro lado e recomeçamos.

Podem pensar que fomos fracos, mas não. Apenas estamos cansados, e essas estrelas já não trazem a alegria de antes.

Decidimos então ficar sem estrelas, no nublado do cinza escuro, vento no rosto e noite de garoa. Uma lua, nuvens negras e só.

 



Escrito por Érica Marin às 01h33
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“Tudo pode ser
Se quiser será
O sonho sempre vem pra quem sonhar

Tudo pode ser
Só basta acreditar
Tudo que tiver que ser, será

Tudo que eu fizer
Eu vou tentar melhor do que eu já fiz
Esteja o meu destino, onde estiver
Eu vou testar a sorte e ser feliz

Tudo que eu quiser, o cara lá de cima vai me dar
Me dar toda coragem que puder
Que não me faltem forças pra lutar

Vamos com você, nós somos invencíveis
Pode crer
Todos somos um e juntos não existe mal nenhum

 

O sonho está no ar... O amor me faz cantar

Lua de cristal, que me faz sonhar
Faz de mim estrela que eu já sei brilhar
Lua de cristal, nova de paixão
Faz da minha vida, cheia de emoção”

 

Tudo que eu quiser

 

Perdi as contas de quantas vezes ouvi essa música quando era criança. Nascida durante a geração Xuxa, tive minhas festinhas de aniversário filmadas com a trilha sonora da rainha dos baixinhos.

Hoje não tenho mais idéia de como andam os programas infantis, talvez pelo fato de ainda não ser mãe, mas sei que nada é como ter vivido nos anos 80, início dos 90.

Ainda recordo com os colegas de trabalho os saudosos desenhos animados, como Thundercats, Caverna do Dragão, Smurf’s, Heeman, e por aí vai. Isso sem falar na imortalidade de bandas adultas como Joy Division, Beatles, Smiths, Queen, The Clash.

Papo de velho? Não. Apenas saudade da época em que não se tocava Créu no rádio e as crianças não rebolavam na televisão com suas roupas tão vulgares quanto suas educações ditas “modernas”.

Isso sem falar na invasão das notícias sensacionalistas que não cessam nunca, o caso Isabella, por exemplo.

Não que não seja de interesse da sociedade saber o desfecho de um dos maiores casos policiais reais que tivemos no Brasil, mas tenha dó. Até as crianças sabem de detalhes minuciosos da perícia quando deveriam assistir Ursinhos carinhosos e sentir medo apenas do Coração gelado e do Malvado.

Talvez seja nostalgia mesmo, mas que aquele tempo era bom, era. E por mais que falem sobre a vida pessoal da loira Meneguel, temos que admitir que as letras que ela cantava estavam anos-luz das de hoje. Uma espécie de motivação para crianças e adolescentes que é rara agora.

Valores, educação, fé, respeito e infância; a falta disso acarreta a maioria dos problemas que enfrentamos hoje.

 



Escrito por Érica Marin às 01h10
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A casa de Alice

 

Muito justa a apresentação do filme “A casa de Alice”, de Chico Teixeira, no Festival da Alemanha. O filme, de 2006, traz a história fictícia (embora muito comum na sociedade) de uma família de classe média baixa que além das dificuldades financeiras, enfrenta as emocionais. Alice, uma mulher forte e uma personagem admirável, mantém um casamento repleto de mútuas traições e conserva um amor genuíno pelo ex-namorado. O relato da história é feita pela visão de sua mãe sobre seu relacionamento com o marido, filhos, casa, e principalmente, com ela mesma.

A mostra marca pela valorização do mundo psíquico dos personagens, não sendo apenas uma vitrine de interpretações, mas de emoções humanas extremamente possíveis e reais.

Seguindo uma linha independente, o filme será projetado em salas alemãs juntamente com outras obras latino-americanas. E para finalizar, uma frase interessante de Teixeira, que nos remete a repensar sobre a cegueira cotidiana e a forma de interpretar a felicidade/ tristeza:

“Sou um homem muito triste, mas não melancólico. Gosto mais de um dia nublado, sem chuva, do que de um dia de sol. Não acredito quando as pessoas falam que está "tudo ótimo". Não está. A vida é muito difícil. Nunca está "tudo ótimo"”.

 



Escrito por Érica Marin às 20h52
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Vende-se a vida

 

Por mais que pareça mentira, eles existem. E nem estou falando dos “profissionais”.

Fiquei indignada com uma matéria que li no Estadão e mais ainda, quando ao digitar a frase “vende-se rim” no Google – conforme indicava a reportagemencontrei vários anúncios, como se vender um órgão do próprio corpo fosse a mesma coisa que vender um carro ou uma bicicleta.

Algumas pessoas realmente não têm a mínima noção do drama que é esse assunto, fazendo dele uma fonte para quitar as dívidas ou comprar aquele objeto de consumo, e consequentemente tornam a dor e a saúde dos outros uma chacota.

Aí pensamos: o pior é que tem gente que compra. Mas não, eles não são os piores da história. Estão em uma fase dolorosa, preocupados entre viver ou morrer e o dinheiro à essa altura, legalmente ou não, poderá lhes garantir a vitória. Portanto, não julguemos quem compra, pois estão no desespero, mas sim quem vende, que certamente poderiam arranjar outra forma de ganhar dinheiro senão em cima da dor dos outros.

Será que eles também vendem o coração, os sentimentos e a alma?

Espero, profundamente, que a conscientização exista de uma vez por todas e que ao invés de vender, as pessoas façam DOAÇÃO. De sangue, de órgão, de amor, de caridade. Somente assim teremos uma sociedade mais humana, ordem e progresso de verdade.

 



Escrito por Érica Marin às 22h53
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Onde os sapos não têm vez

 

Analogia ao sucesso cinematográfico “Onde os fracos não têm vez”, ganhador do Oscar 2008 na categoria de melhor filme.

A trilha sonora perfeita – diga-se de passagem –  acompanha cada cena do roteiro próprio e original, ora dramático, ora comediante, mas que se mantém há algum tempo em um fascinante, porém cansativo, suspense.

Onde os sapos não têm vez retrata as conversas de toilette feminino, dos clubes das Luluzinhas, das noites em que devoramos caixas e mais caixas de chocolate e lemos todos os livros de auto-ajuda existentes, por mais que achemos isso sem graça e de extrema decadência, uma vez que somos mulheres adultas, independentes e inteligentes.

A eterna briga dos sexos, as intermináveis discussões de relacionamento e as mutáveis teorias fardadas a alterações múltiplas, por fases e estações únicas, absurdas, complexas e opostas.

O drible da solidão nos drinks e no rock alto da noite dá espaço à calma serena da leitura no quarto, entre devaneios, lembranças e desejos secretos, ou nem tão secretos assim.

A maturidade que ocupa o lugar da espuma no capuccino com chocolate, novo apreço do outono.

Dessa vez, tratemos da continuidade e da progressão. De como se fez as mais novas páginas do diário da adolescente e tudo que se aprendeu com as dúvidas, os conflitos, os choros, os sorrisos e os medos.

A menina que cresceu, que sonhava em ganhar o mundo e soube em pouco tempo que ele estava dentro de si mesma. O mundo das palavras bonitas, das flores coloridas e das músicas. O mundo que ela construiu com suas próprias mãos frágeis e suaves, mas determinadas e seguras.

A experiência mostrou que a melhor explicação e o melhor desabafo é o beijo. Mãos dadas e malas prontas, um adeus e um recomeço.

Aqui nem os sapos nem os fracos têm vez. Somente os bons e fortes.

 

(...)“E Deus te abençõe nas suas viagens, nas suas conquistas e dúvidas”...

 




Escrito por Érica Marin às 02h44
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Eu sei que vou te amar

 

O coração parece parar de bater e um gelo inexplicável chega, contagiando cada pedaço do corpo até atingí-lo por completo. O som suave invade os ouvidos, braços, pescoço, boca.

Toda fala estrategicamente planejada vai com o vento que entra pela janela e já não se sabe mais o que dizer. Nervosismo, inquietude. A perna não pára de se mexer, os olhos que cruzam por mais que se tente evitar.

Os poros exalam aquele Carolina Herrera for Men. O toque das mãos pesadas e ao mesmo tempo tão leves. O beijo intenso, o calor, a magia e o universo que parece rodar.

Neste momento não existe mundo, paredes, pessoas, lugares. Só sensações, todas juntas, em frenesi.

O cheiro, a pele, as sobrancelhas combinando com os olhos. Sem máscaras, palavras inventadas nem previsões. Estamos a sós com o imenso e sufocante amor. Necessidade, tormento, fascínio, paixão, carinho.

Os corpos entrelaçados frente ao espelho formam o conjunto mais bonito, a mais sagrada obra de arte do mundo. A unção, o suor que escorre por entre sussurros, risos e planos. A paz.

Ele dorme como uma criança, inocente em cada marca. As curvas e os tons das peles se somam. E eu zelo seu sono com imensa alegria.

No silêncio do encontro de nossas almas nos entregamos, com a certeza de que os sentidos às vezes sabem tudo aquilo que não somos capazes de falar.

 

"Por toda a minha vida"... 

 




Escrito por Érica Marin às 05h29
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 A antiga religião

Simbologia, paganismo, espiritualismo, intuição, destino ou imaginação. Formas de se manter posicionado em um mundo excêntrico e fascinante, onde as mitologias se tornam historicamente possíveis e a realidade nos refugia em um misto de crença religiosa e governabilidade.

Dentro da cultura da antiga religião, como é chamada pelos historiadores, há uma imensa diversidade de personagens (reais para quem os cultua e lendários para os céticos) que determinam o papel fundamental e enigmático das mulheres desde o início dos tempos e a eterna busca do equilíbrio entre o bem e o mal, alternando sempre com a essencial importância da fertilidade. Mas o que se concretiza é que as inúmeras crenças que temos hoje e levamos adiante como fatos que transcenderam ao tempo, não passam de informações incompletas e manipuladas pelo poder do cristianismo e do governo de uma forma geral, que energicamente apagaram dos registros as mais primordiais teorias da iniciação do mundo. 

Deuses e deusas dividiam a mesma glória, mas o seguimento de uma religião feminina e “libertina” não era em hipótese alguma uma vantagem no reinado exclusivamente masculino e repressivo desde os primórdios e então, a analogia ao satanismo era de fato, conveniente à aceitação e alienação da população.

Cada um segue a linha religiosa que mais se adequar, sem se importar na veracidade daquilo que ouve. O velho e (bom?) fanatismo. Motivo pelo qual muitas pessoas se acham no direito de matar ou morrer. Mas, Deus, a Deusa ou qualquer que seja a denominação não é amor?

A palavra bruxa não é algo ruim, como acreditamos desde que nascemos. Seu significado, “velha sábia” e tudo que lhe dizia respeito já foi alvo de muita barbaridade e injustiça, e há quem acredite que a introdução da adoração por Maria no catolicismo foi na verdade uma forma de dar continuidade à Grande Senhora sem que isso causasse represálias. Uma maneira anônima de culto, ainda que desconhecida, manteria acesa a imagem da mãe da natureza.

Ainda assim, os rituais que fogem ao convencional são estigmatizados. É engraçado como a modernidade parece nunca chegar em alguns conceitos fora de moda. Com isso, uma das mais antigas tradições do mundo está caindo no esquecimento. 

 

“Tudo o que era sólido se desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado, e as pessoas são finalmente forçadas a encarar com serenidade sua posição social e suas relações recíprocas.”

                                                   (Karl Marx)


A alienação

 

Junte o clero com a elite e terá plebeus mansos e ignorantes. As semelhanças com a atualidade não são, de maneira alguma, coincidência.

Nomes como Karl Marx e Oscar Wilde são facilmente encontrados dentre os grandes componentes da construção da história mundial, mas seus feitos, lamentavelmente a cada ano são esquecidos.

A futilidade cultural somada ao capitalismo permite o insuportável índice de assuntos julgados interessantes, e assim o estudo da genialidade se encontra estacionado ou restrito à economia de relações internacionais, sem ao menos possuir a diplomacia. O caos urbano, previsto, mas ignorado.

Não há como negar que passe o tempo que passar a crença religiosa exagerada, a política e a alienação sempre andarão de mãos dadas. Essa é a afinidade mundial e explícita, seja qual for o deus ou regime que se siga. E esse é o preço que pagamos: a burrice do mundo.
Os meios de comunicação tentam resistir à tendência, mas vez ou outra não há alternativa. E ainda dizem que existe liberdade de expressão/ imprensa.

Voltamos à estaca zero e os foquinhas, coitados, que acreditavam um dia fazer a diferença, encontram em profissionais mais experientes o conformismo necessário para não sofrer enfartes prematuros. Será essa a tal maturidade profissional?

Peças iguais de um exército que caminha rumo ao fracasso, mas que visa sempre o lucro. É isso que importa: quanto.

Superficialidade, esse é o tema da vez, escondido, claro, atrás da palavra profissionalismo. Pessoas que se anulam ou se esquecem que existe ética e pessoal porque querem cada vez mais o topo dos cargos e salários. A arte, a beleza, a emoção e tudo que as cercam são esquecidas. Será a morte da sensibilidade?

  

“O dinheiro é a essência alienada do trabalho e da existência do homem; a essência domina-o e ele adora-a.”

                                                              (Karl Marx)



Escrito por Érica Marin às 00h04
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Escrever estrelas

 

Elas aparecem insistentemente todos os dias. E quando não estão lá é porque a noite será assim, sem graça, como certamente o dia deve ter sido sem sol.

Pequenas ou grandes, brilhantes ou apagadas, mas sempre persistentes.

É engraçado como de repente elas podem surgir ou se ofuscar. É reconfortante acreditar que estarão ali algum dia, porque toda noite fria uma hora chega ao fim. E é inspirador quando as encontramos perdidas em um espaço muito maior que a nossa casa e ao mesmo tempo tão pequeno que não conseguimos fugir delas. Aquele espaço próprio, quente e vivo, dentro do corpo de alguém, como pedacinhos de luz que o tornam fascinante.

Falo de estrelas, de escrever estrelas, de enxergá-las. Falo das palavras escolhidas e criadas, da magia que nos faz pequenos e gigantes em si mesmos e na sensibilidade que recolhemos sem ganhos ou gastos.

Aquilo que nos faz bem sem pretensões, como acariciar um gato de rua. Sete vidas, já sem uma, mas ainda restam seis.

 

“Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio. Que a morte de tudo que acredito não me tape os ouvidos e a boca, porque metade de mim é o grito, mas a outra metade é o silêncio".

                                                 (Oswaldo Montenegro)

 


 

A varanda

 

No começo ela era opcional. Se tivesse, bem, do contrário, bem também, pois não fazíamos questão. É claro que eu pensava no sol e nas possibilidades de enfeitar essa parte da casa, além de imaginar a nossa gata se espreguiçando entre a porta e aquele pedacinho de vista aérea particular, mas, ao mesmo tempo ela não seria tão necessária às nossas primárias pretensões. Por fim, ela existe. A varanda.

Dá pra ver a quadra de esportes e as crianças brincando, alguns prédios vizinhos e confirmar que a foto, quando tirada por dentro de um buraquinho da tela, fica bem legal. Dá pra comprar um vasinho de flor pequeno e uns cristais para trazer boas energias. Mas tudo sem exagero, pois combinamos na discrição das peças.

Esses dias, enquanto limpávamos a bagunça da reforma, pude notar um arco-íris. Corri para pegar a câmera e tropecei na Amélie, folgada, esparramada pela sala. Assim foi possível que nós três observássemos aquela bela imagem. O colorido ia aos poucos voltando aos nossos dias e certamente faria parte do futuro tão doce quanto meu insubstituível mate-com-leite. O calor do corpo dele ao meu lado me mostrava que podemos ver as estrelas ainda que estejamos em pleno claro do dia. E assim, pude enfim entender qual a importância que 60m² exerce na vida de uma pessoa.

 

(...) "É o projeto da casa; é o corpo na cama"...

 

 



Escrito por Érica Marin às 22h39
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Diferença                            

Epilepsia. A palavra por si só assusta, mas assim acontece porque não estamos acostumados a vê-la como uma doença como outra qualquer. Não contagiosa e estigmatizada por antigamente ser tratada com o famoso e taxado remédio Gardenal, essa disfunção cerebral hoje abrange cerca de três milhões de brasileiros, sendo apresentada a cada portador de uma forma específica, como convulsões ou simples e aparentes desmaios. Com os estudos e a descoberta de anticonvulsivos que apresentem menores reações, o tratamento é feito por um período mínimo de dois anos. Recentemente, pesquisas brasileiras apontam que a gordura Ômega3, encontrada em alguns tipos de peixe pode colaborar com o controle das crises. 

Mas infelizmente, por mais que estejamos em plena era moderna da medicina, seu maior impecilho ainda é o preconceito.   

É ridículo achar que um epilético não pode trabalhar ou ter uma vida normal, a não ser a proibição médica do abuso de bebidas alcoólicas e a recomendação de uma vida estabilizada, sem muito stress e moderada quanto aos horários noturnos, o que não os torna um grupo de anti-sociais, caretas ou coitadinhos, mas os trazem a realidade de zelar pelo descanso físico e mental, conservando as oito horas de sono diário (o que também não significa que não podem fugir às regras de vez em quando).

Pessoas famosas como o pintor holandês Van Gogh e o inglês da banda Joy Division, Ian Curtis, portavam essa disfunção. Agora quem lança campanha de conscientização e não-discriminação é Emilie, a roqueira da banda Evanescence, ajudando a mostrar que ser epilético é ter uma outra visão da vida, onde os sentimentos e sentidos se confundem a tal ponto que o “off” entra como uma espécie de interruptor corporal automático, e não uma anomalia que mereça ser posta em xeque sobre a capacidade de seus portadores.  Essa disfunção nada mais é do que a descarga elétrica anormal em um grupo de células nervosas.

Portanto, cabe à sociedade se informar para não diferenciar as pessoas que possuem determinadas características. A informação é gratuita e disponível, mas nem sempre está ao alcance de nossos olhos porque nos fechamos em nossas necessidades rotineiras. Devemos transcender e nos tornar abertos aos milhares de mundos que vivemos, ainda que pareça ser um só.

“Se as portas da percepção fossem desobstruídas, cada coisa apareceria tal como é: infinita”.

                                                                                                    (William Blake) 


 

Devaneios  

Ela olhava pela janela. Os carros passavam lentamente no trânsito que conhecia bem. O ônibus aquele dia não estava tão cheio e ela pôde sentar-se. Ouvia o mp3 no volume máximo, mas a música suave não atrapalhava seus pensamentos. Estava longe, longe.

A canção que começara era como sua trilha sonora. Não se achava mórbida, mas encarava com naturalidade o fim de todas as fases, já que se achava a rainha delas.

Observou a mulher do carro ao lado. Mexia freneticamente na bolsa, parecendo procurar alguma coisa. Mas não. Percebeu então que ela se distraia ao revirar seus objetos enquanto aguardava a longa fila andar. Assim como ela, a mulher era estranha. Sorriu ao pensar nisso.

O céu ia aos poucos escurecendo e as pessoas não paravam de entrar no ônibus. Uns conversavam, outros liam, ouviam música como ela. Outros simplesmente pensavam, ou pareciam pensar. Outros, ainda, dormiam. Ela não. Por mais que parecesse se distrair com o som que saia leve dos fones, ela devaneava. Tinha a incrível capacidade de conhecer um país particular, com cores e formatos abstratos.

Queria tanto e com tal força que mal sabia como começar a realizar os mil planos que fazia.  

Era uma guerreira, mas hoje ela só queria a paz.

Ela não era daquelas princesas de conto de fadas, mas também não era tão real como as mulheres modernas que sonham em gastar fortunas em shoppings. Era fascinada por arte e sabia de cor nomes e mais nomes de filósofos e suas invejáveis teorias. Uma menina, mas uma mulher. Tinha amadurecido o bastante, mas não percebeu a tempo. E se descobria assim, quase sem querer, a cada dia.

Inevitavelmente, pensou nele. O sorriso sem jeito, o modo de como corava ao se envergonhar e do cantinho que sentava para comer churrasco na casa da mãe.

Desceu do ônibus e caminhou atordoada pelo efeito das palavras em sua mente, como um texto mental. A calçada parecia feita de algodão e nunca reparou que seus passos eram tão rápidos. A lua imensa começava a despontar e em um suspiro teve a impressão de levitar.

O corpo em câmera lenta se amparava no chão cinza. Ao voltar a si não conseguiu falar. Não sabia onde estava, mas já havia se acostumado e as mãos formigando lhe eram peculiares. Foi assim, vagarosa e quieta para casa.

Estava de volta a si, na mais tenra vida personalizada que escolhera, e isso a tornava majestosa e forte.

Já não queria mais pensar.

No outro dia, ao despertar do relógio, tudo começava novamente. Sexta-feira.

Acariciou a gata e abriu o portão de casa, e claro, dos seus inúmeros pensamentos.




Escrito por Érica Marin às 09h44
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 O que lhe torna especial                     

 As folhas faziam um suave barulho. Um vulto pequeno, rosa e verde passava rapidamente por entre as árvores. O fogo das tochas clareava a floresta e as pessoas tentavam enxergar no escuro alguma pista que os levassem a ela.

Assustada, alternava entre curtas corridas e vôos para não ser descoberta. Chorava de medo, se sentia encurralada.

As horas pareciam não passar e ela já não suportava mais a caçada, estava exausta. Parou para descansar onde quase não ouvia os ruídos daquela gente maldosa que queria vê-la, tocá-la, aprisioná-la. Suas asas transparentes pararam de bater e ainda que relutante, adormeceu.

Como um sonho, sentiu um perfume doce.

À sua frente, um homem altivo, parecido com aqueles personagens dos contos que lia quando era criança. Não soube por qual motivo, mas não temeu. O olhar dele parecia familiar e então, apenas o observou com cuidado. Ele, gentil, lhe ofertou a mão e pedindo para que não tivesse medo, a conduziu por um atalho.

Andaram durante horas, mas em sua companhia o corpo parecia não pesar. Ele lhe transmitia suavidade e tranqüilidade, a entendendo em seus devaneios.

Juntos, fugiram dos olhares de julgamento das pessoas e conheceram um país lindo, colorido, repleto de flores e música.

Mas, quando tudo parecia ser real, ela despertou do sonho e se deparou com uma multidão. A olhavam assombrados, como se pudesse lhes ofertar algum risco.

Tentou fugir, mas a prenderam em uma rede cinza. Sua diferença era tamanha que jamais a normalidade saberia explicar. Para isso, seria preciso percepção.

As lágrimas escorriam por seu rosto quando lhe arrancaram as asas. A dor de não tê-las mais se confundia com a dor de não ter permanecido em seu sonho, onde a perfeição era verdadeira. Não entendia como podiam fazer aquilo, covardes.

Mas sabia que um dia a deixariam em paz. Sabia que sem o encanto que a tornava diferente dos outros, eles se cansariam dela. Sabia que um dia, ainda que demorasse, iria se refazer e voaria bem alto para que não mais a pegassem. E por isso se entregou, sem forças, ao desmaio mais longo da existência. Para os humanos, a morte. Para as fadas, o recomeço.


 

Tudo

Tudo que você cansou de ouvir e tudo que nunca soube. As palavras mais bonitas abortadas de mim mesma, os pedaços de papel que nunca leu, as músicas que nunca ouviu, o filme que nunca assistiu.

O nunca como presente, o presente como futuro e o futuro como ideal. Você se refazendo em meus sonhos. 

Somos feitos de algo muito além de matéria e da praticidade que zela. Feitos de arte e vida, beleza e carisma, santidade e bondade.

Somos feitos de qualquer coisa que valha a saudade, qualquer coisa que mate a sede e supere os dias frios. Feitos do único e verdadeiro, inesgotável e sufocante, mágico e perseverante.

E por assim ser, somos feitos dos planos, das perdas e das vitórias, das lágrimas e dos sorrisos.

Tudo que você jamais imaginou, mas que esperou ansiosamente por toda eternidade, na mais tenra intensidade. Tudo que restou, e com tamanha força que resiste e se preserva. Tudo que temos, paz e carinho. O que se fez por entre tantos erros que por fim acertou sem perceber.

Não se entende, não se ofusca nem se esquece. Não se angustia porque percebe e sacrifica. Insistentemente confia, preza, persevera, porque ama, sabe e acredita. Porque somos um e vencemos sempre, a cada dia.

 

 




Escrito por Érica Marin às 09h40
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 " (...) Se ela pudesse entender, se pudesse se concentrar, se fosse capaz de romper os muros de luz, se conseguisse passear entre suas infinitas possibilidades. Mas ela tenta. E de maneira tão apaixonada que fracassa nos limites de si mesma. Se ela vencesse essa parede, saberíamos se está ou não cabendo em sua atual realidade. Saberíamos onde ela, enfim, quer, ou necessita, ou sonha, estar."              

                                                                            ("O Efeito Urano", Fernanda Young)

  


 

 

 

Real ou irreal?

 

O quadro era assim, bonito e feio ao mesmo tempo. Estava na parede todo empoeirado, já sem se imaginar na casa de alguém que o admirasse. Ele, como toda obra de arte, vive da beleza, quando não a visível, aquela de expressividade humana onde os sentimentos ultrapassam as barreiras das cores e formas. Para uns, preto e branco, para outros, colorido. E havia de achar algum meio termo para que as coisas começassem a fluir.

Não adiantava persuadir para que vissem do mesmo jeito. Não se muda a visão quando se refugia nela. E mal sabiam que o quadro era de fato, meio a meio.

O toque suave do preto e branco contrastava com a alegria do colorido, mas se completavam. O clássico e o moderno, os números e as palavras, o contraste e a empatia.

Quando entrei na loja tive certeza de que era ele, todo complexo em si mesmo, que ficaria lindo na nossa nova sala. Ele, a parede branca e as flores sobre a mesa.

Amélie – a gata – ronronava por entre os cômodos e as caixas lotadas de roupas, objetos e fotos, ainda a serem colocadas uma a uma em ordem.

Quanto trabalho, pensei. Mas era uma felicidade tamanha que isso era bobagem.

Aguardaríamos até a semana que vem, afinal, as camisas separadas por cores e tons podiam esperar um pouco.

O que não podia esperar era a vontade de ver todos os quadros nas paredes e meus porta-retratos - pedacinhos de lembranças boas - espalhados por toda casa, ou, por algum móvel a ser ainda escolhido para tal tarefa.

Tinta fresca. A porta da varanda se abria de forma dificultosa e a coitada da gatinha cheirava cada espaço para tentar reconhecer o que a partir daquele momento seria sua casa. Um dos quartos ainda estava completamente vazio, conforme eu havia pedido. Coloquei um quartzo rosa no cantinho e fechei a porta. Ele ficaria assim por algum tempo, anos ou meses, quem sabe.

Por entre as caixas achei a primeira foto, a conhecida número 51 do álbum. Como havíamos mudado! Ao lado dela foi que Amélie finalmente se deitou. Um sono profundo e gostoso, digno de uma persa branca e dengosa que come atum e danoninho, que espera ele chegar atrás da porta e que me acorda com as patinhas leves e macias.

Da varanda dava pra ver o pôr-do-sol e as violetas certamente iriam florir nos próximos dias. Estava tudo limpo e a cama fazia um irresistível convite, mas a ansiedade em deixar tudo organizado não permitia o luxo.

Comemos pizza de chocolate, tomamos mate-com-leite e assistimos clips. Inclusive um do Guns, bem antigo, que jamais esqueci.

E ele, o meu tão querido quadro, permanecia ali, mudo e atento a todo movimento. Porque ele sabia o quanto eu tinha desejado esse simples momento.

Calado e amigo. O exemplo que ensinou a não olhá-lo com restrições, mas a entendê-lo como passível de alterações desde que repleto de amor.

 

 


  

 

Aos focas* com carinho,

 

Para exercer a profissão que se sonhou e dedicou durante quatro anos é necessário muito mais que um simples diploma. Intuição, dedicação, paixão, vocação.

É estranho como somos diferentes da maioria dos profissionais. Reparando a personalidade de cada um, sempre encontramos uma afinidade coletiva.

Jornalistas normalmente vivem em um mundo paralelo. Vemos os fatos e as pessoas em detalhes, mas muitas vezes não conseguimos enxergar a si próprios. Culminamos nas perguntas porque possuímos intermináveis indagações internas nunca esclarecidas. Queremos algo do mundo que nunca será recebido, sim, somos incorrigíveis utópicos, sonhadores, curiosos e rebeldes. Somos todos loucos, todos boêmios, incompreendidos, mas alegres. Somos uma legião urbana que não dorme, não sossega, não se entende. E que busca, que ri de coisas tolas, que acha graça em piadas internas e se emociona com palavras bonitas. Que acredita, que nega acreditar, que fala demais ou escreve demais, que erra sempre, mas acerta quando menos espera.

Mais que escritores do cotidiano, somos aqueles que sentem o cheiro do interessante, que correm atrás do real significado daquilo/ daquele e que lamentavelmente muitas vezes não pensam em si mesmos e nas conseqüências dos nossos atos. Inconseqüentes? Não. Corajosos e impulsivos.

Somos toda uma sociedade hipócrita, não-politizada, pobre, preconceituosa. Somos um país de belezas naturais, simpatia, alegria, festa. Somos os escândalos, mas queremos a paz do anonimato. Dançamos no carnaval, mas choramos na solidão dos nossos quartos.

Esquisitos, despachados, repórteres, fotógrafos, editores, radialistas, escritores, assessores, pesquisadores. Somos o quarto poder e por isso somos poderosos, mas nos sentimos pequenos porque não conseguimos mudar o imutável.

Somos libertos e odiamos regras ditadas. Somos mensageiros da expressão humana e ainda assim não somos capazes de aceitar a humanidade. Independentes, mas carentes. Fortes, mas sensíveis.

Enxergamos quadros preto e branco como se fossem coloridos e nos dividimos entre realidade e devaneio. Mas ao mesmo tempo em que somos tanto, somos nada. Porque somos barrados, incompreendidos, marginalizados, censurados. Às vezes até presos e mortos, mas firmes e presentes.

E ainda que tentem nos manipular, somos teimosos e atentos. Desmotivados, mas apaixonados.

E seguimos a palavra periodísta ao pé da letra, sempre, porque isso é tudo que sabemos de nós. O mundo pode desabar, as tragédias podem explodir em culturas violentas e terroristas, o amor pode nunca dar certo, as pessoas podem nunca entender nossa maneira, mas nada disso vai mudar nossa condição primária e apaixonante de ser: jornalistas.

 

 * Foca: jornalista recém-formado.

 

"Adoro escândalos sobre outras pessoas, mas escândalos que me envolvam não me interessam. Eles carecem do encanto da novidade".

                                                                                                                (Oscar Wilde)



Escrito por Érica Marin às 12h01
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